segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


Dia 16 de janeiro de 2010 a trégua vai acabar! Evento que será realizado no The Jungle Music Bar (Comendador Leão - Jaraguá) com Dubex, Vitor Pi e UNIDADE e Xique Baratinho, além de exposições dos melhores tatuadores da cidade e graffitti ao vivo! Acessem o site www.aiegua.com.br para maiores informações e cadastrem-se para sorteio de ingressos e descontos!
A TRÉGUA ACABOU!

sábado, 26 de dezembro de 2009

BOCA


Boca maldita, Boca do Inferno
Muitos ficam boquiabertos
Com bocas sujas
Que aparecem nas bocas de lixo
Nas grandes bocadas
Nas bocas de fumo
Sem caras e bocas
Na cara dura
E vociferam verdades
É boca quente!
De outro lado, bocado de gente
Sem embocadura
Não sabe tocar as trombetas da veracidade
Boca mole
Bate com a língua nos dentes
Pronuncia mentiras e calúnias calientes
Nunca perde a boquinha de uma boca livre
E se apresenta meia boca, inteiramente
Estou certo ou tenho um parafuso a menos?
Eu tenho uma chave de boca
Meus parafusos estão sempre apertados
Sem vazamento
Sempre desviando das bocas de lobo
Desviando do insidioso
Observação Raio-X
Consigo ver lobos por trás de cordeiros
Então desemboca bem longe de mim
Na boca da mentira a verdade da boca
Que espera ter seu sinal beijado

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

DICA DE LEITURA


Neste tão singelo clima de natal envolto em hipocrisia, muitas vezes ingênua (por parte de alguns vulneráveis subservientes, que nem se dão conta de sua condição), aqui vai uma dica de leitura: Compras de natal, texto da consagrada autora Cecília Meireles que versa sobre o consumismo desenfreado e sem muito significado nesta época natalina, mais ou menos na mesma linha temática do meu último texto abaixo publicado. Só não gosto do desfecho, da última frase do texto dela, mas aí são convicções religiosas da autora que não convergem com as minhas.
Isso é o de menos! O que vale é a Literatura!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO!


Disponho-me mais uma vez a escrever sobre datas comercial-comemorativas (estas - natal e ano novo - são as mais comerciais de todas, quase que no mundo inteiro, diria que no ocidente inteiro). As propagandas estão espalhadas por toda parte, as lojas estão lotadas de consumidores-zumbis, prontos para comprar lembrancinhas. Fico abestalhado como as máquinas política e publicitária fazem das pessoas engrenagem para seu funcionamento.
Os povos que acompanham o calendário cristão, ano após ano, elaboram cerimônias festivas para celebrar o natal e o ano novo. O natal é a data que comemora o nascimento de Jesus Cristo, até hoje me faço uma pergunta: se Cristo nasceu em 25 de dezembro e o nosso calendário é contado a partir disso, por que o ano começa no dia 1 de janeiro? Se alguém descobrir, por favor me informe! A verdade é que o mais interessante da data não é o nascimento de ninguém, e sim a morte, a morte do peru. Todos querem filar aquela belíssima ceia posta à mesa, parentes que não se viram durante todo o ano aparecem sempre nessas datas, é impressionante! Ainda aparecem com saudações e felicitações hipócritas. Ao longo de todo o ano vão detonar sua imagem, vão esculachar sua pessoa, como um punhal pelas costas.
Assim é o réveillon também. “Feliz ano novo! Que ele seja próspero e você consiga tudo que deseja!” Abraços demagógicos, beijos falsos. Que saco! Opa, falando em saco, no saco do papai Noel já não cabem brinquedos, a molecada necessita de estudo e comida. Brincar também é importante, mas dar brinquedo nessa data como quem salva o mundo e diz que faz sua parte, é o que mais vejo. Sempre tem dessas coisas, natal solidário, caravana da esperança. O meu saco já encheu! Encheu de tanta hipocrisia! Sejamos solidários ao longo do ano, façamos qualquer dia. Afinal, uma virada de ano não traz nada de novo, a não ser mais um novo dia, que geralmente é igual aos velhos dias, se algo muda é porque você fez mudar. A contagem do ano não pode se apresentar de forma tão vaga, isso é coisa para tarólogos. Pra mim funciona a ciência, o ano é contado através de rotação e translação da Terra.
Bom, a maior parte das nossas datas comemorativas é ornamentada de simbologias religiosas, e dos segmentos humanos que emanam hipocrisia eu considero essas datas as mais carregadas nesse sentido! Por isso aprecio as festividades religiosas que são profanadas pelo povo, como carnaval e são João. A verdade é que o povo quer comemorar a vida, bebemorar também! Façamos a missa do peru, depois bebamos o sangue de Cristo, no dia primeiro de janeiro voltamos à dieta, só até o carnaval chegar é claro!

PELO SPORT TUDO!


Estava para publicar este texto desde que o campeonato brasileiro de futebol findou. Então aí vai.
Fechamos o calendário futebolístico de 2009 com uma grande polêmica, o título do Flamengo. Não a conquista do título em si, que por sinal foi merecidíssimo, um time que entra no segundo turno do campeonato em décimo quarto e termina campeão na última rodada é uma conquista mais que louvável. A polêmica se apresenta no número de títulos que o Flamengo diz já ter conquistado, seis. Flamengo hexa? Não, não! Flamengo penta. O campeonato de 2009 é a quinta conquista do clube.
Falo como torcedor do Sport Club Recife, pois o campeonato de 1987 é nosso! Havia dois módulos naquele ano sendo disputados, a regra dizia que o campeão brasileiro seria quem ganhasse o quadrangular final, um cruzamento dos campeão e vice-campeão do módulo verde (Flamengo e Internacional, respectivamente) contra os campeão e vice-campeão do módulo amarelo (Sport e Guarani, respectivamente).
O que aconteceu? Flamengo e Internacional não aceitaram fazer o cruzamento dos módulos, auto declarando-se campeão e vice do brasileiro daquele ano. Questões que envolviam patrocinadores e transmissão dos jogos fizeram com que esses clubes decretassem o fim do campeonato e se declarassem campeão e vice. Mas a CBF, órgão que regulamenta o futebol brasileiro, reconhece o título do Sport Club Recife. Quer mais? A FIFA, órgão que regulamenta o futebol mundial, reconhece o título do Sport também.


Triste, além dessas falsas declarações sobre o hexa flamenguista, foi o rebaixamento do Sport para a segunda divisão do campeonato brasileiro do ano que vem, mas tudo bem, para voltar à primeira é rapidinho. Só não abro mão do título brasileiro da primeira divisão de 1987.
Muitos devem estar se perguntando: "Mas o Vitor não é alagoano? Que canta Alagoas em suas músicas?" É, sou alagoano de nascença, mas sou pernambucano de criação. Toda minha família é de lá, nasci aqui mas logo fui levado para o território pernambucano, voltei para minha terra de nascimento já adulto. Por isso me considero um alabucano.
É... mas eu sei que faz muito mais sentido um alagoano que foi criado em Pernambuco torcer pelo Sport (desde pequenininho) do que um alagoano que nunca nem foi ao Rio de Janeiro torcer pelo Flamengo. Não que eu me preocupe com questões de fronteiras territoriais, somos Brasil, mas que faz muito mais sentido faz!

Assistam a esse videozinho postado em seguida. Pelo menos uma vez a grande mídia reconheceu o título do Sport Club Recife.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

BRASIS


O bicho
(Manuel Bandeira – 1947)

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

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Debaixo da marquise, famílias inteiras, famílias partidas. Disputando entre si os restos da minha comida. Deliciosa, por sinal. Cara também. Brasil? Eu vi a Somália ali. Lembro-me de um filho do Brasil há dois mandatos vomitando promessas, uma em especial não me saciou – não estava bem temperada, aquela que pronunciava uma mentira faminta pela crença miserável: quatro anos para todas as famílias brasileiras fazerem as três básicas refeições diárias. Insulto à minha inteligência. Oito anos já se passaram desde aquele vômito infame. E ainda hoje me vejo cercado de miséria. Todo mundo sabe dela, todo mundo a vê pela janela, mas quando se vê rodeado por ela, sente a sequela na pele! Foi o que senti. Antagonismo. Paradoxo. Não foi na tela do cinema, foi debaixo do meu nariz. Brasil... Brasis... Feliz país de diversidades culturais. Infeliz país de diversidades sociais. Raspa o prato, menino! Come tudo! Não estraga a comida!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ADMIRAÇÃO


Admiração
por quem me pôs no palco
e tomou de assalto
o meu coração.

Admiração
pelo poeta Artur Finizola,
Alagoas, Angola...
Origem: irmão.

Ao poeta, uma pílula
que não impede o desenvolvimento da irmandade fecunda!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MADE IN NORDESTE

O dia raiou! Algumas substâncias e várias ideias na cabeça, uma câmera digital e um violão em mãos. Resultado? Assiste aí! (Eduardo Bro - violão; Vitor Pi - esse que vos fala)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

CRIATIVIDADE LINGUÍSTICA


Impressionante a criatividade linguística popular! Observem o nome desse bar. Sensacional! Ô, cumpadi... Tá chovendo lá fora, enquanto eu espero passar, pinga uma pra mim aí! (rsrs)
Por esse aí eu não tive o privilégio de passar, mas fica aqui, como bom boêmio que sou, o registro de alguns outros bares com nomes criativos pelos quais já transitei: Querubim Bar, CalaBar, Barfômetro, Maria vai com as ostras, e outros mais que eu não estou lembrando agora, já tou ficando bebo...
Eu, particularmente, já pensei em vários nomes fantasia caso eu fosse proprietário de um estabelecimento nesse segmento, o que não ia prestar, diga-se de passagem. De passagem mesmo, prefiro frequentar a administrar. Os que mais gostei foram: ViLuDiBar (brincando com as primeiras sílabas do meu nome completo: Vitor Lucas Dias Barbosa) e, meu preferido, Cá Bar é. Imaginem como seria! (rsrs)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ÀS MENINAS (à corajosa)

(Auto-retrato - Tarsila do Amaral)

XX, combinação frágil poderosa
Na conquista por direitos iguais
Apetece-me a conservação das diferenças
O jeito meigo e singelo de ser menina

Às meninas da minha vida
Que fazem parte e que já fizeram
Dedico palavras masculinas
Amor, respeito, encanto

À que gera e cria
À que ama e cuida
À que gerou e criou a que me ama e me cuida
À que nunca sentiu algo assim
À que se tornou poeta por minha causa
À que se tornou minha amiga
À que me teve como primeiro namorado
À que me teve como caso qualquer
À que investiu em mim
Às que me ensinaram
Às que têm o jeito menina no ser de mulher
Àquela que me ama e está comigo
À que está por vir

Há que se registrar
Todo meu amor, respeito e encanto
Por esses seres humanos
Que me fazem mais humano
Pois a humanidade reside nelas

Em preto e branco
Vi sua face
Vi a coragem
Estou te esperando

Seja bem-vinda
Minha filha
A corajosa, Tarsila

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

INSATISFAÇÃO GERA REBELDIA


A história nos ensina naturalmente que em condições de insatisfação há uma tendência natural ao surgimento da rebeldia. Vários episódios estão nos anais da História nesse sentido. Revolta disso, revolução daquilo. Não há algemas nem chicotes que possam conter a rebeldia que aparece como resposta natural às atrocidades cometidas por quem está no poder.
Bom, aqui estamos diante de mais uma data comemorativa (ou seria comercial?) que celebra o dia da consciência negra, que celebra a morte. 20 de novembro de 1695, é abatido o líder do quilombo de maior resistência anti-escravista do Brasil, Zumbi do quilombo dos Palmares. Pois é, uma data em que através da morte de um líder negro, por circunstâncias convenientes aos herdeiros dos próprios assassinos de Zumbi, há um incentivo ao despertar da consciência dos negros. Como assim? Comemorar a morte de um líder como forma de despertar uma consciência. Consciência de quê? Ah, o foco de resistência foi derrubado, mas nos trouxe direitos iguais. Desde quando somos diferentes para termos que lutar pelos mesmos direitos? E esses direitos, quais são? Cotas universitárias? Porcentagem de vagas em empregos? Propaganda de grandes empresas parabenizando o dia?
Esmola. Migalhas jogadas ao povo como forma de controlar eventuais surgimentos de mais focos de resistência. Devemos lembrar de Zumbi, claro, de sua importância no combate à escravidão. Mas temos que perceber que a verdadeira comemoração está no nascimento da resistência, não em sua morte. O povo que deu a maior parcela de contribuição na construção deste país continua sendo tratado como diferente. Termino me convencendo de que é mesmo. É mais bonito, mais resistente, é mais quente! Não se deixe iludir por paliativos promovidos por sobrenomes europeus, eles querem o controle, querem propor falsas satisfações para que não aflore nossa rebeldia.
É, camará, a casa grande caiu. A senzala foi à forra. Levantaram palácios cercados por muros. Construímos favelas cercadas por morros e grotas. Contrataram segurança. Fizemos a nossa própria. Dispensaram os miúdos no lixo. Fizemos a feijoada que mancha a gravata que será lavada pela negra que iniciou sexualmente o patrãozinho que espancou o mendigo que faz parte do programa governamental. R$ 50,00 pra votar. Votar com consciência. Viva a consciência negra! Comemoremos hoje, pois amanhã é dia de trabalho, de batente, de tronco. Amanhã é dia de branco, viu?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"De vagabundo, poeta tem muito pouco"


Brincadeira, o poeta começa a ficar saturado deste mote. Ter que enfrentar salas abarrotadas de a lumnos em sua maioria, e essa grande fatia vai deixando os outros também sem lumnosidade alguma, ter que encarar textos onde se encontram tamanho despreparo e desinteresse dos autores. Pra quê? Pra garantir o salário, a carteira assinada. Isso sem cantar um versinho sequer.
Poetas transitam entre trabalhadores fordistas, mecanizados, mas fazem poesia paralelamente, por necessidade de expressão. Será coisa de quem é de gêmeos? De onde apareceu esse horóscopo? São os astros. Astros que forram a cama, lavam os pratos, resistem, acumulam, mas seguram a onda, lavam a garagem, lavam as cuecas, pagam as contas atrasadas e tentam compor de onde sairá o próximo dinheiro, se divertem também, sem glamour, mas glamourizam a medida do impossível à base de poesia.
É o mito do trabalho. Seguir regras, manter padrões e aparências, ser funcional, fazer o dinheiro maior para os outros. Carga horária a cumprir. Um salário. Muito obrigado. Obrigado a fazer, a seguir, a executar. Fazer o quê? Seguir a execução e paralelamente poetizar; é muita coisa ao mesmo tempo. O trabalho enaltece o homem (?). O que realmente enaltece, expressão, vai ficando pra trás e perdendo espaço pra repetição que atrofia e atropela a criatividade no trabalho de cada um. Nesse momento “tudo que clamo é saudade”. Eis a receita de um poeta de verdade.

Oh, vida pra dar trabalho! Viver não tem precisão, mas improvisação, ora adaptação, nunca a métrica rígida. Poucos podem poetizar o que almejam... Poesia, trabalho de realização expressiva do indivíduo, que pode trazer o sustento financeiro ou não.

domingo, 8 de novembro de 2009

Quanto vale uma Pessoa?


“Um amigo não se faz, se reconhece.”
(Vinícius de Moraes)


Se tudo tem um preço
Quanto vale uma Pessoa?
Ideologia não se vende
Caráter não se vende
Amizade não se vende
Independente de partido
A medida da amizade é sentimental
E sentimento não tem cifras
As cifras só nos trazem aspirações
E nos deixam inspirados...
Enriquecem nossos discursos
E afloram nossas veracidades
Ouvidos para escutar os problemas
Sorrisos para compartilhar as conquistas
Homenagens aos mortos
Existem várias
Homenagem ao vivo
É o que proponho aqui neste singelo poema
Dedicado a um amigo
Eu disse amigo
Que em sua feição teleológica
Passeia por um mundo retórico-simples
Convidando-nos à atenção
E sempre nos brindando com conclusões charmosas
Ora prosaicas, ora inéditas
Mas sempre impressionantes
Algumas passíveis de discussão
Mas eis o sentido de uma verdadeira amizade:
O espaço para o diálogo
Ah, esta Pessoa...
Faço questão de tê-lo
Apresento-me proselitista de uma grande amizade
Defendo, tomo pra mim
E sei que esta Pessoa faz o mesmo
Amigo? Amigo sou eu!
Quem toma as dores assim em público?
Somente um grande amigo
Mesmo sendo contrariado
A certeza do que se quer está sempre presente
Que presente em minha vida
Profundo conhecedor da História e de várias histórias
Futebol? Quer saber?
É só acessá-lo
Mas não o leve a campo
Sua virilidade física não chega nem perto de seu conhecimento
É a verdade, posso falar
Sei que a verdade não o incomoda
Na verdade, ela é sua dupla de ataque!
Na intimidade de intimar
A promessa feita é cumprida
A amizade é comprida
Eis aqui o resultado de valor inestimável
Não tem preço a satisfação
Não tem preço esta Pessoa

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

LIGAÇÕES PERIGOSAS


Quem já imaginou a vida sem celular ou internet? Quem tem mais de 20 anos não precisa imaginar, porque passou por essa vida. Não sou contra tecnologia, não sou ranzinza, posso usá-la a meu favor. Uso. Mas é que sou um apreciador da tecnologia rudimentar. Da sofisticada simplicidade.
Lembro-me das cartas, das missivas, do toque no papel, do cheiro no papel, do desenho das letras como um espelho do remetente. E a satisfação do destinatário com a percepção da realidade. Há também toda a espera, expectativa da chegada...
Agora, não há mais escapatória. Não há mais espera. Há cobrança, incômodo, aborrecimento, num tempo que já não era sem tempo. Tudo agora, ao mesmo tempo.
Você num lugar, mas já te viram em outro. Viu que não viu, será que viu? Associou, mas não saciou a curiosidade. Anexou e enviou. Adicionou e ingressou num chat chato. Virtual realidade distorcida.
Você recebeu uma mensagem. Kd vc? Ksa. Qdo? Hj. Hahuha. Ligações perigosas. B Identifica Número de A.
- Que barulho é esse, hein?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CURIOSIDADES LINGUÍSTICAS


“Em Maceió, "passaporte" é sinônimo de cachorro-quente incrementado. Tudo graças ao salsicheiro gaúcho Milton Braun, que há 36 anos mudou-se para a cidade. Hoje, a lanchonete conta com cerca de vinte diferentes tipos que já nem dependem tanto assim da salsicha.”
(http://vejabrasil.abril.com.br/maceio/comidinhas/37022/passaporte-gaucho/)

Pois é, como diz no trecho da matéria acima, em Maceió não se pede cachorro-quente, mas passaporte – o que em si já é uma curiosidade linguística. O gaúcho citado inclusive, Milton Braun, é pai da Cris Braun, minha amiga e cantora de renome nacional. Há duas participações dela no nosso álbum Pau-Brasil, nas faixas 07 – Siga lá, cantando os refrões, e 11 – Abaporu self serve-se, fazendo um metal de boca. Bom, mas a curiosidade linguística principal que venho expor é a que ocorreu ontem comigo. Fui a uma lanchonete, que não era a do gaúcho Braun, mas que leva o nome de Passaporte do Tchê, e pedi dois passaportes. A especialidade de lá são os passaportes, mas eles fazem outros tipos de sanduíche também. Olhei no cardápio e pedi um passaporte de frango e um passaporte misto - que seria frango mais carne moída mistos no mesmo sanduba. Pedi: “Me dê um de frango e um misto, pra viagem.” Fiquei conversando com dois amigos, que estavam lá lanchando, enquanto ele aprontava meus passaportes. Quando ficaram prontos peguei os sandubas embalados pra viagem, nem olhei, paguei e fui embora. Ao chegar em casa me deparo com um passaporte de frango e um misto, não um passaporte misto, famoso em Maceió, mas um sanduíche misto, nacionalmente conhecido, pão + presunto + queijo. Não deu pra saciar a fome fisiológica, mas aguçou a curiosidade linguística. Na próxima, pedirei um misto sem elipse: “Me dá um PASSAPORTE misto!”

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MY SPACE


Pra rapazeada antenada que curte o nosso trampo! Tá no ar o nosso MySpace de cara nova, com a cara do trampo atual, moderno e modernista! www.myspace.com/vitorpirralho
Confere. Valeu!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TUDO POR DINHEIRO


Futebol, política e religião não se discutem? Pode ser que a preferência individual não se discuta, mas com certeza tais assuntos discutem entre si.
Bons tempos aqueles em que os jogadores vestiam a camisa do time, não só vestir no sentido de se uniformizar, mas de defender a causa, a história, a glória do seu time. Seu time. Pois os jogadores nasciam, apareciam e se destacavam, e se aposentavam com o escudo do mesmo time no peito. Naquele tempo o ato de beijar o escudo fazia muito sentido, hoje não mais. Em uma temporada o jogador torna-se ídolo de um clube, na outra está beijando a camisa do time rival. Quem dá mais, quem dá mais? É um leilão de atletas. Por que tudo isso? Porque há uma política em torno dos esportes. Causas trabalhistas, secretarias, ministérios, cláusulas, verbas desviadas em lances estranhos que são guardadas na gaveta. Golaço! E o povo? Ah, o povo fica ao deus dará. Depois de pagar promessa, desembolsa o dinheiro que ganhou suando a camisa para pagar o ingresso e ver o seu time perder de forma estranha. Numa combinação milagrosa de resultados o outro time se classifica. E as entrevistas? “Graças a deus...”, “deus nos abençoou...”, sinal da cruz aqui e acolá. Por que deus não ajudou meu time? Deve ser porque ele é torcedor do time adversário, ou de repente aceitou propina. Pelo amor de deus...? Faça uma fezinha porque nada é por amor, é tudo por dinheiro.

MASTIGANDO SONORIDADE

Matéria publicada no blog do Jornal do Brasil (RJ) na página da jornalista Heloisa Tolipan. Para ver matérias sobre outras bandas do nordeste, lá postadas também, acesse: http://www.jblog.com.br/heloisatolipan.php?blogid=107&archive=2009-10


Antropofagia é a palavra de ordem para Vitor Pirralho, o rapper cabeça que encabeça a banda alagoana Vitor Pirralho e U.N.I.D.A.D.E. Por quê? Basta prestar atenção à sigla que compõe o nome do grupo: “União Não Influenciada Demagogicamente Antropofagia Determina o Estilo”. Não entendeu? O Vitor explica: “Sou professor de literatura e um dos textos mais interessantes que li foi o Manifesto antropofágico, de Oswald de Andrade. Temos de nos desprender das demagogias estilísticas e fazer proveito do canibalismo cultural. A arte é legado universal e, a partir do momento em que alguém expõe a produção, não é mais propriedade particular. Fica à disposição da humanidade”, diz, acrescentando: ”Não se trata de copiar, mas de apropriar-se da cultura alheia para somar a sua própria. E com tantas referências boas, a gente ainda se depara com músicas feitas apenas com fins mercadológicos. Ser reconhecido nacionalmente todo mundo quer. Eu quero. Mas se for para me travestir sem critério, fingir ser quem não sou, é melhor virar ator de novela“. A coluna chegou a Vitor por indicação de Pedro Luís, da PLAP, que ouviu o som dos rapazes em uma viagem ao Nordeste. Os dois músicos não se conhecem pessoalmente, mas... ”E aí, Pedro, vamos fazer um som aqui em Maceió?“, propõe Vitor. Convite feito. Sabe outro padrinho de Pirralho? Ney Matogrosso, que se fascinou pelas ideias antropofágicas dos meninos, que acabaram de lançar o segundo CD, Pau-Brasil – disponível para download no site www.vitorpi.com.br –, feito com recursos da Funarte e do MinC, pelo Projeto Pixinguinha.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

CURIOSIDADES LINGUÍSTICAS


Mais uma curiosidade linguística pela nossa cidade. Na praça do pirulito, centro de Maceió, há vários estabelecimentos que trabalham com motos e bicicletas. Há uma loja lá cujo nome é SOB RODAS. É onde geralmente faço a manutenção da minha motocicleta, bom atendimento dos caras. Só espero não precisar qualquer dia desses fazer a minha manutenção, pois eu quero estar sempre SOBRE as rodas, jamais SOB elas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

CURIOSIDADES LINGUÍSTICAS


Fui utilizar o banheiro, ou o TOILET, de um posto de gasolina no bairro do farol, na cidade de Maceió, e me deparo com essa plaquinha na porta. Automaticamente eu imaginei: TO LET, em inglês é o verbo deixar; TOLETE, em português nordestino é aquele amigo íntimo do cidadão, sabe né? Então fiquei com essa construção interlinguística em minha cabeça: ir ao toilet to let o tolete... Já pensou? Não era o meu caso naquele momento. (rsrs)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

AQUARELA HIP HOP


Eis o link para ler a matéria lida também por Ney Matogrosso:
http://gazetaweb.globo.com/v2/gazetadealagoas/texto_completo.php?cod=154125&ass=8&data=2009-10-10

sábado, 10 de outubro de 2009

INFORMAÇÃO IMPRESSA

Viva à boa informação veiculada pela imprensa! Por causa de uma matéria publicada hoje, a respeito do lançamento do disco Pau-Brasil, na imprensa escrita de circulação estadual, conheci Ney Matogrosso. Estava ele no hotel, depois de tomar seu café da manhã, no dia seguinte (hoje) ao show realizado aqui em Maceió, quando decide abrir o jornal, que estava ali à disposição, e fazer uma leitura. Lá estava eu na capa do Caderno B, o Ney leu a matéria e, curioso (como ele mesmo se descreveu), queria saber quem era aquele indíviduo de ideias antropofágicas ali descrito naquelas páginas. Ele perguntou a Sue Chamusca, produtora do evento de ontem, se ela conhecia Vitor Pirralho. Fui rapidamente acionado por Sue e me apresentei ao recinto para trocar algumas ideias com o Ney e deixar com ele nossos discos, claro. Grande figura. Viva à informação, e à curiosidade!
Impresso. Salve, salve Gutenberg.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

BOM, NA PARTE...

Recentemente, um conhecido, Napoleão, me parou num barzinho para batermos um papo. Sua conversa foi sobre o meu trabalho musical. Diferente de outros elementos, que já citei por aqui, ele me abordou para elogiar minha música e minha performance de palco. Seu trabalho é muito bom, disse Napoleão. Bom, na parte do elogio agradeço. Se quiser viver disso você tem que ir embora de Maceió, disse Napoleão. Bom, na parte trabalhista ele tem razão. Se sua intenção não é viver disso, é só tirar uma onda, chamar atenção dessa galera aqui e de umas menininhas, tudo bem, fique por aqui mesmo, mas se quiser viver disso saia daqui, disse Napoleão. Bom, na parte trabalhista enfatizada, realmente ele tem razão. Se quiser ganhar territórios, vá embora e invada outros lugares, disse Napoleão. Bom, na parte de conquistas territoriais quem pode contrariar Napoleão? Mais uma vez ele tem razão. Se a galera da sua banda não quiser ir com você, vá só, lá você monta outra banda, disse Napoleão. Bom, na parte de ir sozinho, na hora não contrariei, só ouvi, mas fica difícil conquistar o mundo sem um exército. Não tenha medo de passar fome, você vai se garantir, rapidinho você desenrola, disse Napoleão. Bom, na parte da fome, não tenho medo de passar fome, tenho medo de morrer de fome.
A questão aqui simplesmente se desenrola por dois veios, o de sonhar e vê tudo acontecendo na sua imaginação, e o de se projetar para fazer a imaginação realizar-se. Na minha cabeça, Napoleão, tudo que você me falou sobre invasões já está desenhado, como um plano de guerra mesmo, sabe? Todo projeto traçado. Mas as ferramentas para deflagrar tal plano é que me faltam. Sejamos realistas e pensemos numa maneira de atacar e sair vitorioso da batalha, pois ir para territórios já dominados e entrincheirados por outros soldados da música, e conquistar assim facilmente, é um tanto platônico, não acha? Principalmente quando se fala em vencer uma batalha tão grande como essa, sozinho e sem suprimentos. Aí o soldado não consegue nem pensar, quanto mais guerrear. Pescador de ilusões? Talvez seja, mas com certeza soldado da realidade. Afinal, tenho contas a pagar, satisfações a dar, e logo mais uma menina para criar. Se o meu exército quisesse ir para o front comigo, eu até me arriscaria, mas os soldados do meu exército não são só do meu, há outros exércitos mais rentáveis a eles, e como bons sobreviventes de guerra eles se agarram àquilo que os sustenta. Napoleão, como diz um velho soldado amigo nosso, se for para passar mal eu passo em frente ao mar, comendo um peixinho e um camarãozinho.
Faca de dois gumes, tiro pela culatra. É... fazer música é bom, na parte...

Para entupir a cabeça da trupe

Resenha do disco "Pau-Brasil" para um jornal laboratório do Curso de Jornalismo da UFAL, por Victor de Almeida

Se Oswald de Andrade fosse vivo, com certeza, assinaria o Manifesto Pi. Pensado e criado por Vitor Lucas Dias Barbosa, mais conhecido como Vitor Pirralho, o manifesto alagoano e caeté se apóia na idéia do escritor modernista de antropofagia e serve como base para o trabalho do rapper maceioense.
A proposta apresentada em “Devoração Crítica do Legado Universal” (2008) parece mais bem acabada no novo álbum de Pirralho, “Pau-Brasil” (2009). O disco, que foi financiado pelo Projeto Pixinguinha, pode ser considerado uma espécie de trabalho conceitual sobre o índio e seu contato com o português-colonizador. Naturalmente, sem forçar a barra.
Primeiramente, basta reparar o nome das faixas que remetem à temática indígena. Mas não é só o índio que se faz presente na linguagem de Vitor Pirralho, como bom seguidor de Oswald Andrade, o rapper quer é devorar tudo, mas sem deixar de ser tupiniquim. Então, temos a presença do português, do negro africano, da igreja católica e de outros fatores que exerceram influência no período histórico do Brasil colônia.
Em Língua Geral, as rimas se referem à chegada do colonizador e de uma língua comum, geral, relacionando a assimilação cultural ao canibalismo dos índios que habitavam o território. Da mesma maneira, Carne e Aval, Tupi Fusão, Abaporu Self Serve-se, Siga Lá e Extinção Abundante tratam de pontos pertinentes à antropofagia, mistura de raças e línguas.
Não é só mistura de línguas que dá o ‘molho’ no rap do, também professor de literatura, Vitor Pirralho, aspectos culturais como a monogamia, poligamia, censura, preconceito e religião são postos em discussão. Como são os casos de Divórcio, Index, Sinistro, Versos Negros e U.N.I.D.A.D.E.
Polêmicas, protestos, regionalismos, estrangeirismos, universalismos, índios, portugueses, africanos, culturas, religiosidades, antropofagias, raps, reggaes, rocks, beats, digestões e misturas. Tudo isso compõe a Unidade e o discurso de Pirralho.
Caso continue achando que os Manifestos Pi e Antropofágico não façam tanto sentido nos dias de hoje, ouça “Pau-Brasil” e coloque-se no papel de colonizador e de colonizado. Fará todo sentido.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

PROGRAMA DE ÍNDIO

Este é o título da faixa de introdução do disco Pau-Brasil, é uma faixa instrumental que contém algumas declarações reais de índios brasileiros. Eis aqui um vídeo em que consta um depoimento do pajé da tribo Cariri Xocó e que utilizamos um trecho de sua fala nessa faixa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

LANÇAMENTO DO DISCO Pau-Brasil



Sábado, 12 de setembro de 2009, na Praça Marcílio Dias (Jaraguá). Espetáculo aberto ao público. Vitor Pirralho e U.N.I.D.A.D.E. lançando o novo álbum, Pau-Brasil. Participações, em shows de abertura, de Clandestinos e Adama Roots. A partir das 20 horas.


sábado, 22 de agosto de 2009

HÁ 10.000 ANOS ATRÁS


Vinte anos sem Raul, mas o que são vinte anos se comparados a dez mil do melhor rock’n’roll nacional? Não tem nada nesse mundo que ele não saiba demais. E nós, meros mortais, continuamos a absorver de sua sabedoria milenar. Música e discurso engajados de alguém que não ficava com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. Uma metamorfose ambulante realmente, quase que num conflituoso tom barroco, ao afirmar que o diabo é o pai do rock, mas que se faz necessário ter fé em deus e na vida. O homem é o seu momento, e isso é melhor do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo e não saber nada. Ah, esse garoto... Não tem nada que ele não saiba demais. E ai de quem tentar forçá-lo a usar um sapato com um número menor que o seu. Autenticidade na Antropofagia de tornar o rock em algo intimamente nacional, nordestino, com acordes de baião na guitarra e letras de temas nacionais censurados, não é verdade Al Capone? Vinte anos. Que nostalgia. Dá licença, eu agora vou ficar com certeza maluco beleza. Ô, meu rei, toca Raul!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

NEVER CAN SAY GOODBYE


De luto. Pela morte de um extraordinário artista. Exímio transformista, artística e pessoalmente, exímio ilusionista, a smooth criminal. Lembro-me que ao me interessar por música, quando pequeno, pelos idos de 1987, 88, a motivação para esse interesse veio do fascínio causado pelo contato com a arte de Michael Jackson. Who’s bad? É... Bad, meu primeiro disco (vinil), meu primeiro contato com a música de forma ambiciosa. Passaram-se os anos, sempre curti, coisas sinistras começaram a acontecer com o cara, fisicamente, moralmente, socialmente, judicialmente.
Tornou-se notícia negativa. Toda opinião pública voltada para a negatividade em torno de Jacko. Aquele que antes fora ovacionado, premiado e aclamado pela mesma opinião pública, tornara-se vilão. Vilão? Pelo amor de mãe, ao olhar para aquela figura percebe-se quão inofensivo era, quão frágil, um meninão. Opa, sem querer figurar qualquer fatídica piada. Só querendo lembrar a tecla mais batida: você viu a infância dele? Pois é, “Quem controla o passado tem o futuro à mão”, o passado dele o controlava. O que ele foi é reflexo do que ele era, do que ele sofreu. Problemas sócio-psiquícos. Mas de uma inerência artística genial, disciplina imposta e assimilada. Tiraram onda, comigo várias, mas nunca sucumbi. Sempre fui um fã e apreciador desse complicado e brilhante artista.
Agora que ele morreu, outra vez a opinião pública arma uma situação conveniente, e convincente. Falou-se até num, póstumo, Nobel da paz. Várias matérias, vários discos, DVD muitos. No camelódromo do centro, só deu Michael, Hau! Eu adquiri alguns, recuperei o que na verdade já tinha, e que se perdeu para o tempo, na época do VHS. Para um competente e inspirador artista, parafraseá-lo faz-se necessário, não posso dar adeus. Quando meu filho nascer, não, não é isso, ele não se chamará Michael Jackson, ouvirá falar sobre e ouvirá ele cantar. Legado.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

TUPI FUSÃO

Letra: Vitor Pi

VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
Em tupi, entupiu
Canibal deglutiu
Tio samba aglutinou
Tu que viu, viu
Quem viu, quem degustou
Gostou do que sentiu
Digeriu, arrotou
Canja de laranja, casca de galinha
Isca de polícia, farda de sardinha
A carapuça serviu
A batina caiu
Bloco carnavalesco, pitoresco Brasil
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
Pintura rupestre, tinta nanquim
Índio nordeste, tupiniquim
Camisa da Levi’s e calça jeans
No lugar de flecha, bala e fuzis
Sequestro do chefe da fundação
Na mesma língua, sem confusão
Na mesma moeda, a negociação
Capital estrangeiro, pajé, capitão
Pé d’água, toró, como chovia
De português, o tupi se vestia
Se fosse no sol, tu se despia
E dispensaria a hierarquia
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
No verso aversão à imposição
Servo, sou não, faço a exposição
Sobre condicionamento e catequização
Pobre estamento, mais injusta divisão
Nobres no convés e os negros no porão
Conte de um até dez e prenda a respiração
Quem controla o passado tem o futuro à mão
Conheça sua História, não durma, irmão
Fique esperto, liberto de qualquer exploração
Mais perto do certo, andar com atenção
Antropofagia pra fugir da tensão
Sardinha no cardápio pra fazer a digestão
Como não? Como sim, é apropriação
Nossa risada no fim tem mais sensação
A resistência é a própria ação
A hora da virada é a nossa sanção
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
Vitor Pi, vim em tupi, pra entupir de ideia a cabeça de toda trupe
Vitor Pi, versão tupi, pra entupir de ideia a cabeça de toda trupe

A célula desta letra surge numa certa madrugada quando eu pulo da cama com os versos do refrão martelando minha cabeça, levanto para anotá-los e posteriormente fazê-los martelar a cabeça de toda trupe. A letra em si é um aglomerado de situações que nos fazem Brasil, os sincretismos racial e cultural da miscigenação índio, preto e branco, e como a colonização se moderniza a cada dia. Situações que dirigem a temática do disco como um todo, então essa música vem logo como uma porrada depois da faixa de introdução para apresentar o que vai ser a obra. Há nesta letra, na terceira estrofe, um verso (quem controla o passado tem o futuro à mão) que é uma referência à obra 1984, de autoria de George Orwell, nessa obra ele diz que "quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado". Há também uma referência (uma deglutição) a um poema de Oswald de Andrade intitulado “Erro de português”, no final da segunda estrofe, observem. Eis o poema:
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

LÍNGUA GERAL

Letra: Vitor Pi

Folclore, cultura, postura popular
Pra manifestar o cerebelo, pra pular
Pedra, inha; planta, cana; água, pi
Naquela árvore não pousa jacuí
Só ara poia aca, Arapiraca
Beirando o moeru-gui-i, Maragogi
Pousam periquitos, voam mosquitos
Nos cílios do Igaci
Cururugi vai chegar, é só seguir o Roteiro
Dom Pero Fernandes achava-se perdido
Em terras da tribo, mero estrangeiro
Programa de índio, um pedaço do peito
Um pedaço do braço eu aceito
Preso e cercado como um peixe no igarapé
Tudo bom, Dom? Eu sou caeté
LÍNGUA GERAL, ARTE REAL
DA CORTE AO CORTE ARTERIAL
LÍNGUA GERAL, ARTERIAL
DA CORTE AO CORTE, ARTE REAL
Pode começar a rezar
Diante do jaciobá
Livrai-nos do mal, saravá
O pai vosso não vai salvar
Salve, selva, salto, solto, saiba sabiá
Urupê, traipu, sucuri, uruçu, maracajá, tracajá
Pra temperar, jurema e urucu
Urupema açu pra peneirar
Quero o Quebrangulo reunido
O jantar vai ser servido
É hora de atacar
LÍNGUA GERAL, ARTE REAL
DA CORTE AO CORTE ARTERIAL
LÍNGUA GERAL, ARTERIAL
DA CORTE AO CORTE, ARTE REAL
Iguaria sem igual, português com sotaque afro-indígena
No Brasil, língua geral, dialeto mascavo, miscigena

Língua geral, assim os colonizadores batizaram a língua que era falada pelos nativos quando aqui aportaram. A maior parte dos indígenas no litoral brasileiro falava o tupi, mas com algumas variações de tribo para tribo à medida que elas geograficamente iam se afastando, chegando a ter vários dialetos e línguas tribais diferentes. Mas o colonizador chamou toda aquela salada linguística de língua geral. Esta letra, além de citar o fatídico episódio da deglutição do bispo Dom Pero Fernandes Sardinha pelos caetés, tenta resgatar algumas expressões desses dialetos misturando-as com a língua portuguesa, trazendo à artéria de nossa linguagem a realeza de nossa arte miscigenada.

DIVÓRCIO

Letra: Vitor Pi e Beto Brito

Me casei com uma gringa chegada ao Brasil
Aprendeu minha língua, logo descobriu
Que o nativo da ginga era vadio
E se evadiu, se evadiu
Abriu do negócio, partiu
Pediu o divórcio, sumiu
Com mais de mil, ninguém viu
E eu no meu ócio, viril
Com mais de mil produções
Ócio do ofício, paixões
Uma em cada parte do mundo
Viajante que vaga, um vagabundo
À procura de mais uma dama
Que eu possa levar para a cama
Aumentando, assim, minha fama
Oh, meu amor, diz que me ama
Ô, COISA BOA, QUEBRAR O PADRÃO
VIVER SEM PATROA, SER O PATRÃO
VIVER À TOA, AMOR PAGÃO
LEALDADE, SIM; FIDELIDADE, NÃO
Tu quebra o quadril, tu quebra o quadril
Mas não quebra tão bem quanto no Brasil
Carnaval, futebol, ritmo-fusão
O Brasil é rei, sempre campeão
Com você foi paixão à primeira ouvida
Mas meu amor é de forma promíscua
Te dou a moral de ser oficial
Mas minhas negas, cadeira cativa
Você não me entende
Mas vou explicar
Quando chego no samba
Logo salta ao olhar
Pois boêmio que é bamba
Não suporta ficar
Com uma só dama
Toda noite a dançar
Eu te digo a verdade
Pode acreditar
Só passeio com outras
Com você vou ficar
Tenho identidade
Então posso falar
Vou mesclando as raças
Minha ginga é o que há
Ô, COISA BOA, QUEBRAR O PADRÃO
VIVER SEM PATROA, SER O PATRÃO
VIVER À TOA, AMOR PAGÃO
LEALDADE, SIM; FIDELIDADE, NÃO

É bem verdade que minha mulher não ficou nada feliz com esta letra, mas explicarei aqui o que já a expliquei (e que mesmo assim não foi muito bem digerido por ela). O divórcio aqui proposto é com a unilateralidade artística. Geralmente o que acontece é que o artista prende-se exclusivamente ao seu tipo de arte e não enxerga além do seu próprio horizonte, é uma espécie de antolhos artísticos. Aqui eu proponho um divórcio com o rap, pois eu quero imprimir mistura, miscigenação (eis a proposta do disco), flertar com outras vertentes musicais, inclusive essa música vai até numa levada samba para quebrar o padrão. Apresento agora, através dos próprios versos desta letra, indícios dessa intenção: quando digo que casei com uma gringa, essa gringa é o rap, pois é a veia principal da minha música, chego até a declarar que quando conheci o rap foi paixão à primeira ouvida, mas quando ele descobre que eu quero flertar com outras vertentes logo pede o divórcio, porque percebe que eu não quero ter uma monogamia artística. Posso até ser leal, mas nunca fiel, não sou artista de um único estilo, por isso digo que dou ao rap a moral de ser oficial, mas minhas negas (outros estilos) terão sempre cadeira cativa em minha produção. É a Antropofagia que vem desde o primeiro disco sendo exaltada, aqui mais veementemente. Quando digo “tu quebra o quadril, mas não quebra tão bem quanto no Brasil”, quer dizer o seguinte: a expressão hip hop significa quebra de quadril, por causa da dança urbana, mas esse quadril não (re)quebra tão bem quanto o nosso samba que direto da senzala explode o mundo em devaneios artísticos. Ou seja, todos os momentos da letra que falam em mulher leiam-se estilos, ritmos, outras vertentes que não o rap. E na parceria da composição, Beto Brito fecha tal intenção: “Só passeio com outras, com você vou ficar, tenho identidade, então posso falar, vou mesclando as raças, minha ginga é o que há”.

CARNE E AVAL

Letra: Vitor Pi

O sabadão se revela
Chega Zé Pereira de caravela
“terra à vista, acende uma vela
pagamos à vista o preço desta terra”
100% de desconto no conto do vigário
De um a outro ponto já vão 5 centenários
“sois cristão?” o Zé Pereira preguntou
Mim, não! O guarani retrucou
“não sois cristão?” o Zé Pereira se espantou
“então, sois pagão” o Zé Pereira emendou
Pagão, pagador
Salvação, salvador
Dali pra aqui, de lá pra cá
Quem vai salvar? Quem vai pagar?
Em vão, devedor
São Tupi, errou
Divindade dali, pajelança de cá
Tupã, candomblé, babalorixá
Liberdade e libertinagem, vamos confundir
Vamos comer carne e todo o mundo fundir
Hmmm... jejum, passo mal
Você tem a carne e eu tenho o aval. Carnaval!
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
CANHEM BABÁ CANHEM BABÁ CUM CUM!
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
E FIZERAM O CARNAVAL, CARNELEVARIUM
A quarta-feira é de cinzas
Então pisa que desaparece
Aos desavisados avisa
O povo visa que o ano comece
No meio da folia aparece
Quase tudo
Quase nua, qualquer rua
Carne vale, pleno entrudo
Mudo quando vou pro cume
No perfume que é lançado
No estado alterado
Pra bem alto rume
“contrariando a vontade de deus
este povo pagão está fadado aos seus
mundanos costumes
achando-se imunes
pecadores, imundos plebeus”
Silvícola ateu?
Bebo o sangue de Cristo
Minha tribo sou eu!
Como a carne do bispo em posta
Proposta que o diabo gosta
Encosta e canta:
Aleluia! A semana é santa
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
CANHEM BABÁ CANHEM BABÁ CUM CUM!
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
E FIZERAM O CARNAVAL, CARNELEVARIUM

Mais uma vez apresento, através desta, a mistureba que é o Brasil e como o povo brasileiro consegue de situações adversas fazer festa. Pesquisando sobre a origem do carnaval (como bom brasileiro que sou, minha festa preferida no ano) me deparo com o que, na verdade, já sabia, festa de cunho religioso e dissimulada folcloricamente pelo povo. Carnelevarium, expressão que em latim quer dizer carne vale, a época que é liberado o consumo de carne para depois de uma quarentena jejuar e pedir perdão pelos pecados numa semana declarada santa. Assim é o Brasil, vamos fazer festa que amanhã a gente se vira, deus proverá, livrai-nos do mal, amém. E o homem segue crendo na criação divina, enquanto o divino segue criação humana. Ao longo da História, sopro inerente e hereditário de esperança. Além dessa pesquisa, de fundamental importância nesta composição foi o poema de Oswald de Andrade (mais uma vez em meu aparelho digestivo) chamado “brasil”. Eis o poema:
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

EXTINÇÃO ABUNDANTE (CADEIA ALIMENTAR)

Letra: Vitor Pi

EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Corro do socorro, faço minha correria
Mato a grito cachorro e um leão por dia
A fauna financeira corre risco de extinção
Ecologia desequilibrada no bolso do cidadão
Cueca de empresário, pasta de pastor
O financeiro em cativeiro não é reprodutor
Monopólio monetário, título: doutor
Não traz mais amor nenhum beija-flor
Só o melzinho é o que ele suga
Chega de mansinho igual tartaruga
Há 500 anos sempre em fuga
Tanto tempo no cargo, já criou ruga
A carapuça cai como luva
A carapaça vai sempre dura
Na leveza e graça de uma garça
Percebe-se que nada vem de graça
Quanto mais batalha a recompensa é mais rara
É pra virar fera, pra ficar uma arara
Trabalho noite e dia e ainda faço bico
Pra ganhar 20 conto às vezes pago mico
Mas se for pra encher a pança
Aí eu sou até amigo da onça
Tenho que dar conta quando chego em casa
Para alimentar cinco bocas
Quando o apurado é só uma piaba
Tenho que transformá-la em garoupa
E se vacilar? O jacaré abraça
Aí você fica de touca
EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Corro do socorro, faço minha correria
Pra poder botar na mesa o feijão nosso de cada dia
Assando e comendo, comendo o que me sobra
Leite de pedra, pau pra toda obra
Moro aglomerado num moquiço do cortiço
Casa de pombo, de rato e outros bichos
Trabalho num zoológico: na portaria do edifício
Bichos exóticos, peruas e suínos
Controlo a entrada e a saída
E também o horário de visita
Meio dia, entrega da comida
Lavagem para os porcos, pros abutres a carniça
Pras hienas de botox, sempre sorridentes
Caras esticadas a mostrar os dentes
Contentes com os restos da lavagem
Lavagem financeira que garante a imagem
Um dia decidi não ser mais cúmplice de tudo
Decidi falar e não ficar mudo
Voz pronunciada, voz de assalto
O preço que paguei foi um tanto alto
Aquele dinheiro espalhado pelo chão
Não caiu do céu, caiu da minha mão
Dinheiro sujo, sujo de sangue
Espécies se extinguem, outras se expandem
EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Na cadeia alimentar
É assim que funciona
O mais alto patamar
Permite que se coma
Manter-se em nível inferior
É certeza de tornar-se vítima do predador
Lei da natureza, da natureza humana
O globo cada vez mais aquece
Então vê se não esquece
É quente, não desanda
A minha parte eu quero em espécie
EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Na cadeia alimentar há
Uma reação em cadeia elementar

Nesta letra vamos encontrar uma abordagem de aspectos mais urbanos, desigualdade social, a correria do dia-a-dia do cidadão que vive assando e comendo, como se diz no dito popular. Apesar da letra falar muito em extinção de várias espécies, essa fauna que eu abordo aqui é a fauna financeira. Nossas cédulas têm, cada uma, um exemplar de nossa fauna: R$1 beija-flor, R$2 tartaruga-marinha, R$5 garça, R$10 arara, R$20 mico-leão dourado, R$50 onça-pintada, R$100 garoupa. E essa fauna está em extinção no bolso do cidadão comum, levando-o muitas vezes a partir para o desespero. Eu tenho uma tatuagem que contém todas essas espécies, essa letra resume o significado dessa tatuagem pra mim, o porquê de ter feito ela. A exemplo do disco anterior, a música “O palhaço” resume também uma outra tatuagem minha.

SIGA LÁ

Letra: Vitor Pi

SIGA LÁ, SIGA LÁ
DIZEM AS MÁS LÍNGUAS, MAS
QUE LÍNGUA É MÁ? QUE LÍNGUA É MÁ?
A QUE LUDIBRIA
Ah, se eu falasse a língua dos anjos
Meus versos seriam tocados a banjos
Mas minha leitura é pouca, não manjo
Na língua geral, então, me arranjo
José de Anchieta, um zé jesuíta
Diz minha língua a do satanás
Nos autos, a portuguesa é divina
Prefiro meus versos a la maracás
Que língua é essa que ludibria
e diz que jamais mentirás?
Sete palmos de língua comprida
Ih... faz o sinal da cruz a quem jaz
Artigos e leis, advocacia
Brincando de deus, me condenarás
Sua criação é supremacia
Ao dizer: deus é mais
SIGA LÁ, SIGA LÁ
DIZEM AS MÁS LÍNGUAS, MAS
QUE LÍNGUA É MÁ? QUE LÍNGUA É MÁ?
A QUE LUDIBRIA
FMI e CPI
FGTS com IPI
MST quer a fazenda
E do PIB a renda
De camarote na UTI
Terras daqui, terras sem fim
Deixaram sem T o meu curumim
Arrenda o não, empenha o sim
IPTU para t-u-p-i?
Tu pediu para aqui construir?
Não pago por aquilo que me
Quilometricamente pertence
Só vence, pai, o que não cai
De pé o pajé quebrando a FUNAI
Representa o de menos que um dia foi mais
IBGE, carta de Pero Vaz
RG, CPF, blefes de mim
O verdadeiro eu, eis-me aqui
Vem de sermão cifrado em latim
Eu lavro o BO em xocó cariri
o V é de Vi, o P é de Pi
e UNIDADE
SIGA LÁ, SIGA LÁ
DIZEM AS MÁS LÍNGUAS, MAS
QUE LÍNGUA É MÁ? QUE LÍNGUA É MÁ?
A QUE LUDIBRIA

Aqui eu tento fazer um questionamento sobre o ditado “dizem as más línguas”. Que língua é má? Esta é uma boa pergunta, se considerarmos que se comunicar (tornar comum) é algo muito saudável. Ainda no século XVI, a Companhia de Jesus, órgão da igreja católica que ia até as terras recém conquistadas com a missão de catequizar os povos nativos, chega ao Brasil com seu principal representante, José de Anchieta. Este jesuíta, que foi um grande estudioso da língua indígena brasileira, chegando a escrever um Dicionário de Língua Tupi, usou de artifícios como os autos, teatro que representa comemorações e festividades católicas, para ludibriar os índios e convertê-los a sua religião. Nas representações, geralmente permeadas por duelos entre anjos e demônios, os anjos falavam a língua portuguesa enquanto os demônios falavam tupi. Já pensou? Dessa forma o índio foi forçado a acreditar que precisava se salvar aprendendo a língua do colonizador, se salvar de quê? Todo povo tem seus deuses e cada um tem seus demônios... Essa sim é uma má língua, uma comunicação que ludibria outrem, assim como a infinidade de siglas que todos os dias nos ludibriam dizendo siga lá, e seguimos o divino caminho rumo ao inferno.

SINISTRO

Letra: Vitor Pi, Artur Finizola e Wado

Todo mundo tem direito de estar direito
Seja canhoto ou certo
Mas é que tudo está errado
Um todo errado, pois o esquerdo é ambidestro
AMBICANHOTO E AMBIDESTRO
UM TODO ERRADO E OUTRO CERTO
Acordar com o pé direito, pois se é esquerdo
Tua jornada é inferno
E no canhoto do teu cheque um zero à esquerda
E no outro, muitos zeros
AMBICANHOTO E AMBIDESTRO
UM TODO ERRADO E OUTRO CERTO
A localização nem tão à esquerda
Assim do coração
À esquerda, mas nem tanto
O coração ao centro-esquerdo
No peito diálogo coalizão
No centro-esquerdo o coração
Prática política oblíqua
Orgânica destreza despreza
Prática, orgânica

A letra desta música surge de uma forma bastante curiosa. Eu estava a fim de dividir uma composição com o Wado e o intimei para que fizéssemos algo. Nesta época ele tinha quebrado o pulso esquerdo e estava escrevendo com a mão direita - a mão dele que não é “boa”, refletindo sobre essa questão de lados. Eu também sempre me intriguei com essa questão, é verdade que não precisei quebrar o pulso para escrever sobre o assunto, mas já tinha algo escrito sobre o que é direito ser certo e o que é esquerdo ser sempre considerado o do contra, o errado. Como na política, a direita é conservadora, a esquerda é anárquica, é errada, é contra a ordem, assim é formalmente determinado. Eu tinha passado esses versos que havia escrito com essa temática para meu parceiro de sempre Artur Finizola, para ele musicar, e ele deu uma mexida neles para enquadrá-los melhor sonoramente. Pronto, juntamos tudo e fizemos esse som. Ah, e o título, por que sinistro? Sinistro em italiano, língua latina como a nossa, quer dizer esquerdo. É sinistro, rapaz!

INDEX

Letra: Vitor Pi e Beto Brito

Ainda lembro da História
Entre o tempo e a memória
Permaneço, continuo por aqui
Fiquei abestalhado
Fiquei impressionado
Perplexo, pressionado com o que vi
Ninguém imaginava
A chegada de uma esquadra
Do nada, apareceu, veio assim
Sua vinda, cara pálida
Foi um tanto válida
Em termos, posso dizer que sim
Mas também eu te digo
Se tu não tivesse vindo
Bom, não estaria tão ruim
Dizendo algo desse tipo
Eu sei, muitos amigos
Ha, ha! Vão rir de mim
Mas tem dois lados a moeda
Só quero trocar ideia
Pôr em pauta, apenas discutir
A natureza alterada
Doenças espalhadas
Tribos, várias, viram seu fim
Culturas dizimadas
Mulheres estupradas
Riquezas roubadas, e aí?
Por outro lado, seu código
Foi decodificado, é lógico
A ler aprendi
DEVOLVA MEUS LIVROS, POIS MESMO NÃO LIDOS
EU SEI QUE SÃO MEUS
DEVOLVA MEUS CACOS, POIS MESMO QUEBRADO
EU SEI QUE SOU EU
Dentro do monastério
Ronda muito mistério
A sala secreta é bem aqui
Só monges seletos
Têm o acesso
É uma biblioteca que eu vi
Exemplares manuscritos
Sendo revistos
Alguns proibidos, bem assim
O nome da rosa
É o nome da obra
Umberto Eco, esse aí eu li sim
Igreja católica
Censura hipócrita
Monopólio, isso é ruim
Você chegou com uma missão
De salvar um povo pagão
Imposição que foi feita a mim
Só seu deus é o que salva
e purifica a alma?
Calma, eu queria discutir
Mas não teve argumento
Os anos de 1500
Novos tempos, começo do fim
Já que você é todo arte
Vou comer a sua carne
É o que me cabe, mim não tá nem aí
Através da sua chacina
Uma lição você me ensina
Vingança cultural, aprendi
DEVOLVA MEUS LIVROS, POIS MESMO NÃO LIDOS
EU SEI QUE SÃO MEUS
DEVOLVA MEUS CACOS, POIS MESMO QUEBRADO
EU SEI QUE SOU EU

Em mais uma parceria com Beto Brito, que me cedeu os versos que compõem este refrão, escrevi uma letra que trata de um outro episódio vergonhoso protagonizado pela igreja católica ao longo da História, o monopólio de informação. Puxando pela memória, vocês hão de lembrar que além da santa inquisição, da venda de indulgências e coisas do gênero, a igreja tinha um órgão censor que só liberava as obras que não contestassem nenhum de seus dogmas. Foi criada, então, uma lista conhecida como Index Librorum Prohibitorum (índice de livros proibidos) que vetava a divulgação de certos trabalhos de determinados autores. Naquela época não havia ainda a imprensa, então cada exemplar era praticamente único, quando não era único tinha-se uma ou duas cópias manuais do exemplar, acrescidas ou decrescidas de informação conforme fosse o interesse da alta cúpula clerical. Há na letra a citação de uma obra, O nome da rosa, de um escritor italiano chamado Umberto Eco, que relata essa passagem da História. Obra que foi adaptada para o cinema com o mesmo título, no elenco aparecem Sean Connery e Cristhian Slater. E uma curiosidade na construção poética da letra é que todas as palavras que fecham as ideias nos versos da primeira estrofe (aqui, vi, assim, sim, ruim, mim, discutir, fim, aí, aprendi) são as mesmas na segunda.

VERSOS NEGROS

Letra: Vitor Pi

Palavras têm força demais, mudam até de sentido
Se transportadas pra outro contexto adquirem negativas cargas
Já abordei tal assunto em um outro som
Aquilo que fica do lado esquerdo tem conotação de errado
O mesmo acontece com uma das cores
Aquilo que remete ao preto tem semântica de sinistro
A situação tá preta, a peste negra invadiu
No mausoléu despedida trajada de negro representa luto
Se branco é cor de paz, decreto preto fúria
A pele tomada pela melanina não sabe o que é paz pelo alvo
Se branco é cor de paz, piada de humor negro
A pele tomada pela melanina não sabe o que é paz pelo alvo
Versos que não rimam são chamados de versos brancos
Mas no atributo de um novo sentido, designo versos negros

Esta letra traz o contexto afro. Questiona o fato sócio-linguístico da cor negra ser designada para tudo que é ruim (piada de humor negro, a situação tá preta, peste negra etc.). Assim como é o caso do lado esquerdo, abordado na música “Sinistro”. Há aqui, inclusive, uma citação a ela nos terceiro e quarto versos. Versos que não rimam, na literatura são chamados de versos brancos, aproveitei a situação para escrever uma letra construída em cima de versos brancos que trouxesse nesses versos uma temática negra, tornando tais versos, brancos na composição literária, em versos negros, no conteúdo. Um rap sem rima? Oh... Basta métrica. Dessa forma, ratificando que rap é poesia e ritmo, não necessariamente rima.

ABAPORU SELF SERVE-SE

Letra: Vitor Pi

Arte – carne é meu depart
E da parte faz-se o todo
Para o rodo do enfarte
Pé no lodo, apartheid
Causa mortis, cred card
Vida, dívida, embarque
A defesa é ataque
Copo d’água, tempestade
Em pleno desmantelo
Apresento imunidade
Ameríndio quer espelho
Para a face da verdade
Filé é carne nobre
Na boutique do abate
Caeté não quer que sobre
Nem sequer um abade
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO
Uma morte, um alarde
Para muitos já foi tarde
Para outros vira mártir
O cacique kamikaze
A cobra vai fumar
A onça, beber água
E na oca vai entrar
Uma índia de anágua
Vai fazer strip tease
Para seu abaporu
Não adiantou o nome
Na boca do cururu
Ela quer monogamia
Quer que ele se aquiete
E ele foge da monotonia
Várias tribos pelo chat
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO
O urubu e a carniça
O fogo e a fumaça
Do bicho-preguiça
Só sobrou a carcaça
O fogo na floresta
Que faz dela pasto
Faz naquela festa
O gado virar churrasco
A flecha era espeto
A reserva era rancho
O índio era preto
Agora brinca de branco
A flecha era espeto
A reserva era rancho
Índio, preto, branco
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO
O homem que come
Ele mesmo se serve
Nunca passa fome
Assim que nós veve
Um receptor
Para minha parabólica
Camila, pitanga
Batida com vodka
Tupi guarani
Paricá, rapé
Pitu, guaraná
Oxalá, xequeté
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO

Nesta letra temos um contexto semelhante à Tupi fusão, a modernização da colonização. Adaptação aos instrumentos do colonizador, fazendo uso e se tornando parte todos os dias do motor histórico, inclusive no âmbito das línguas que se fundem quase que de forma orgânica. Por isso o título Abaporu self serve-se, aqui você encontra três línguas dividindo uma mesma expressão e causando uma ênfase na mensagem através de uma redundância sintática. Abaporu (em tupi quer dizer o homem que come), self (pronome reflexivo da língua inglesa que quer dizer si) e serve-se (expressão reflexiva da língua portuguesa, servir a si mesmo). Há também nesta letra uma referência ao escritor modernista Mário de Andrade e à sua obra Macunaíma, na qual o índio Macunaíma nasce preto e depois se torna branco (o índio era preto, agora brinca de branco).

U.N.I.D.A.D.E.

Letra: Vitor Pi

Atenção, atenção! Mensagem positiva
Deixa eu explicar qual é de mermo dessa rima
Mastigo, mastigo, e aproprio o que interessa
Faço uso do filtro e exproprio o que não presta
Faço referências e deixo evidente
Antropofagia determina o estilo da gente
Estilo louco, inteligente
Sua percepção não compreende
Se não compreende, então tente
A porta foi feita pra você, abra e entre
Se não tentar não consegue, fenece
Ao que me parece, a ignorância prevalece
Disseram que o meu som não era rap
Com segregação o movimento não cresce
Mas deixe para lá, isso aí a gente esquece
Não faço questão de fazer parte dessa espécie
Comédia tem inveja, porque sabe que o meu som é fora de série
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA O ESTILO DA GENTE
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA, O ESTILO É QUENTE
Parcerias vão e vêm
Começam bem, nem sempre acabam bem
Se bem que também estarei sempre além
Sem olhar a quem
Não devo nada a ninguém
“one good thing about music, when it hits you feel no pain”
Não gostou do que falei?
Ora, ora, quem falou foi Bob Marley
E agora, vai tratar com desdém?
A ideia que me vem
É que música é harém
Minha postura se mantém
Porque não sirvo às artes, são elas que me servem
Promiscuidade inata, o artista tem
Variedade alta, são mais de cem
Aquele que é fiel e só faz o que convém
Não vai pro céu, vai morrer virgem
Enquanto o jesuíta catequiza e diz amém
Os caetés salivam e o comem
Sardinha enlatada, já dispensei
Pra batina manjada nova roupagem
Não preciso de pajem
Pois sou pajé
E tu, o que é?
Submisso, aquém
Muito aquém
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA O ESTILO DA GENTE
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA, O ESTILO É QUENTE
O hip hop é de ninguém, não tem dono
O hip hop é de ninguém, é de todos
Quem é você pra dizer o que devo fazer?
Você é doido
Faço dele o que quiser, pois é
Isso aqui é um microfone e não um picolé
Sua vida imita a arte, minh’arte imita a vida
Nunca ouve da minha parte mensagem fictícia
Visão separatista, nunca houve da minha parte
A arte imita a vida, pois viver é uma arte
Por que falo em parte se pretendo unidade?
Partindo do princípio que apartheid é uma verdade
Pra ficar mais claro, catei no dicionário
A palavra gueto e seu significado
Bairro onde os judeus moravam obrigados
Lugar onde o povo é confinado
Pra não virar finado tem que andar ligeiro
Libertar-se das correntes, deixar de ser prisioneiro
Não sou mais escravo, descarto os paradigmas
Então segura tua peruca, zacarias
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA O ESTILO DA GENTE
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA, O ESTILO É QUENTE

Nesta letra podemos observar um desabafo. Aquilo que havia sido explicado na letra “Divórcio”, cabe também aqui. Neguinho do rap fica indignado comigo pelo fato de eu tentar inovar misturando outros estilos ao rap, chegando ao absurdo de me excomungar do movimento, como se pudesse fazê-lo. O rap, o hip hop, não são religiões, não têm dono nem dogmas, são artes, e as artes devem ser usadas como instrumento de expressão e não usar o indivíduo como fazem os clérigos que pregam alienação. Chega de catequização! Eis o meu som, não pretende segregação, e sim u.ni.d.a.d.e., siga lá esta sigla! (União Não Influenciada Demagogicamente, Antropofagia Determina o Estilo).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem perder o niver


Seduzido pela ideia que já me tomava há alguns anos, tentei fazer um evento para comemorar o meu aniversário, na data mesmo do aniversário (20/06/2009), era um sábado. Decidi tentar fazer algo quando apareceu uma persona, conhecida das antigas, que disse estar trabalhando na área de eventos e propôs fazer um evento com nossa banda. Falei para ela dessa ideia que me tomava já há algum tempo, ela automaticamente abraçou a causa e disse estar interessada em realizar o evento.
Realizar? Foi o que pensei. Achei que, como de costume, iria chegar ao local e mandar ver junto com a banda. Neste achar-de-costume foi que começou uma sucessão de erros. Primeiro, fazia-se necessária outra atração, pra dar mais caldo à festa. Aciono rapidamente os parceiros da Xique Baratinho, banda que muito me interessa (música e integrantes), por isso convoco esses camaradas. Beleza. Segundo, um evento tem que ter divulgação. O baixista da XB, pelo fato de trabalhar na imprensa (G7) – a mais conceituada do Estado, me deu toda a força para realizar a divulgação do evento. Jornal e televisão. Enquanto a “realizadora” do evento falava em conseguir espaço em algumas rádios. Não se ouviu nada em nenhuma rádio. A divulgação só foi lida e vista através da imprensa citada. Foi lida e vista, também, não posso deixar de citar, no site de um outro parceiro (www.aiegua.com.br), site conceituado em conteúdo cultural alagoano.
Parceiro este que também foi responsável por idealizar a arte do evento e pela discotecagem no dia festa, não só pelo espaço virtual. Seu aniversário é no dia seguinte ao meu. Então vamos comemorar juntos, vamos fazer a festa!
Ok. Até então, com a ajuda desses camaradas, a coisa ia andando. Com a divulgação encaminhada e com a arte na mão, o que estava faltando? Imprimir a arte (cartazes e panfletos) para colocar na rua. “Realizadora”, quem vai bancar essa impressão? Patrocínio, apoio... Desespero! Nada de dinheiro. Bom, como já estava envolvido até o pescoço e a divulgação já circulava pela rede e pelos jornais na cidade, eu banco a impressão. Junto mais três amigos e vou pra rua colar os cartazes e panfletar. Mais uma vez, os parceiros me salvam. E o som da casa? Não tem bateria. Outra vez o meu bolso é acionado. Ligo para um outro parceiro que trabalha com som e consigo a bateria, num precinho camarada, na pechincha (presente de aniversário). A “realizadora” disse que a casa de shows ia colocar na rua um carro de som anunciando o evento e uma placa na frente do estabelecimento com as informações da festa. Não vi carro nem placa. Na verdade, havia uma placa, anunciando um show de pagode a ser realizado no dia seguinte.
Acabaram os problemas? Eles estavam apenas começando. Você deve estar se perguntando: começando? Apesar dos pesares a divulgação não foi realizada? É, foi sim. Mas havia alguns problemas com os músicos. Nosso guitarrista esqueceu que ia trabalhar num outro evento, realizado ali perto, evento junino da prefeitura (concorrer com esse evento, aliás, foi desleal, diria até estúpido – eu ainda avisei, mas a “realizadora” disse que “nossa galera é alternativa, é outra galera”); nosso baixista tinha que tocar no mesmo horário numa outra casa, ali perto; o baterista da XB tinha que tocar em um outro evento junino, bem longe; o guitarrista da XB vinha de Pernambuco pra tocar no nosso evento e no meio do caminho sofre um acidente, ainda bem que não foi nada fatal, a única fatalidade foi que ele não conseguiu chegar.
E agora? Sem guitarra e sem batera não tem como Xique Baratinho tocar. Cancelada, na hora, a apresentação dos caras. Ingressos que custavam R$ 10 têm que ser reduzidos para R$ 5. Só assim justificaria a insatisfação dos poucos ali presentes. Como nós trabalhamos com um aparato eletrônico em nossa música, levamos o som da guitarra e do baixo no computador. Foi o que nos permitiu tocar e salvar, em parte, o evento.
Agora sim, você deve estar pensando, acabaram os problemas. Mas eu tenho que citar o último problema. Pra gente tocar foi necessário convencer o dono do estabelecimento, que perdeu o nível e queria cancelar o evento. Ele disse, de forma até agressiva, que com a quantidade de pessoas presentes não tinha como arcar com o prejuízo (seguranças, equipamento de som, bebidas etc.). Propus que essa parte acertasse com a “realizadora” do evento, que fechou com ele um negócio de risco, ele aceitou fazer o evento por 20% da bilheteria, aliás, única coisa até aqui de concreto por parte dela, fechar o acordo com o estabelecimento onde foi realizada a festa. Diante de situação tão constrangedora ela pergunta ao dono da casa: “o que você propõe?”. Soou até como ironia aquela indagação, mas uma ironia perceptivelmente despreparada. Tomo à frente mais uma vez e proponho que mesmo fora do esperado realizemos o evento. E realizamos. Eu e meus parceiros, eu e minha família.
No final, foi muito legal. Minha mãe levou bolo e velinhas, cantamos parabéns, sorteamos CDs e tatuagem (apoio de mais outro amigo, tatuador que entrou na parceria), ou seja, tudo que estava previsto no script do evento – exceto a apresentação da XB, foi realizado, em respeito a quem se fez presente no dia, amigos e admiradores do som, sem precisar perder o niver.

Que menino é esse?

Certa vez, num momento de desavença no relacionamento, minha esposa, na época namorada, desabafou no papel escrevendo sobre minha pessoa. Confesso, de textos que divagam a meu respeito este é de longe um dos mais interessantes que já li. "Que menino é esse?", este é o título do texto, abaixo, que ela escreveu.
"Que menino é esse que me dá tanto trabalho? Vixe! Nunca vi igual. Menino "bunito", tinhoso e muito atrevido que me faz passar mal... e como faz. Menino com asas que não fui eu quem deu, já veio com elas desde sempre, e ai daquele que ousar cortá-las pra ver o que acontece. Menino que tem pavor à palavra limite, palavra essa que não consta no seu vocabulário imenso. Menino falante, quase um alto-falante, uma metralhadora ambulante que só para de falar na hora que dá um gole no copo de cerveja. Deve ser característica dos gigolôs finíssimos."

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Paródias piradas par'ódio de muitos

Entraram sem bater na porta ou pedir licença.
Abriram a geladeira e gostaram muito do que viram.
Meteram logo a mão.
A mesma que de próprio punho encarregou-se logo de informar:

“A terra é mui graciosa,
Tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,
No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
Bengala de castão de oiro.
Tem goiabas, melancias,
Banana que nem chuchu.
Quanto aos bichos, tem-nos muitos,
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais.
Diamantes tem à vontade,
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, senhor, a arca,
Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora daqui.”
(MENDES, Murilo. Carta de Pero Vaz.)

B_rigamos.
R_esistimos.
C_edemos.
A_cordamos.
S_ofremos.
A_daptamos e adaptamo-nos.
Então cantemos o hino adaptado que esbraveja a nossa adaptação sofrida, acordada e cedida, depois de tanta briga e resistência:

“Num posto da Ipiranga, às margens plácidas,
De um Volvo heróico Brahma retumbante
Skol da liberdade em Rider fúlgido
Brilhou no Shell da pátria nesse instante
Se o Knorr dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço Ford
Em teu Seiko, ó liberdade
Desafio nosso peito à Microsoft
Ó Parmalat, Mastercard, Sharp, Sharp
Amil um sonho intenso, um rádio Philips
De amor e Lufthansa à terra desce
Intel formoso céu risonho Olympicus
A imagem do Bradesco resplandesce
Gillete pela própria natureza
És belo Escort impávido colosso
E o teu futuro espelha essa Grendene
Cerpa gelada! Entre outras mil és Suvinil,
Compaq amada
Do Philco deste Sollo és mãe Doril
Coca-Cola, Bombril!
A melhor parte do hino é a cerpa gelada. E essa:
Gillete pela própria natureza. Quer dizer que somos
todos bi? cortamos dos dois lados!?Rarará. Nóis sofre,
mais nóis goza!”
(José Simão, trecho extraído do texto Chegou o domingão! Hoje tem rebelião?, Folha de S. Paulo, 18/03/2001.)

Vida de professor

Nas minhas correções de exames simulados da área de Humanas do ensino médio, estou inesgotavelmente cercado de uma fonte que borbulha maravilhas da construção textual de nossos jovens. Gosto de me prender aos desafios de tentar desvendar, entender, talvez traduzir, as respostas, que não dão respostas, produzidas por esses estudantes.
Apresento, a seguir, o primeiro caso que decidi registrar. Nele é possível observar um belíssimo enchimento de linguiça quando o aluno ao se deparar com uma questão de Filosofia, que versava sobre os tipos de verdade, lapida esta pérola:

"Toda verdade é verdade, né verdade? Então levando em conta tudo isso, agora penso eu que a verdade não pode ser nada mais do que a própria verdade. Mesmo que a verdade não seja verdade, aí ela seria uma não verdade, ou seja, mentira. Mentira é o contrário da verdade, onde com a mentira buscamos esconder a verdade para nos livrar de alguma coisa. Né verdade? Ou eu tô mentindo? Ou seja, tudo que eu falei tem razão, se tem razão Tomás de Aquino também tem razão, né não? Com todos esses pensares, Totó (Tomás de Aquino) ele harmonizou a verdade da fé com as verdades da razão natural, a partir de um único princípio, que foi a verdade. Chegando à conclusão de que sempre devemos dizer, falar, dialogar, conversar, hablar, speak, somente a verdade."

Eu li, viu?
É verdade, meu jovem!

O outro caso vem de uma prova de História que pedia para explicar como os negros ainda neste milênio sofrem segregação racial. Este aluno, observe, promove uma segregação através de sua (des)comunicação.

"Pelo fator da cor na aparência do local (com todo mundo branco dá impressão de lugar mais de elite). Por capacidade mental não lhe são dados cargos importantes (superiores) aos que lhe são oferecidos (aos negros)."

Tento desvendar. "Pelo fator da cor na aparência do local (...)", a pergunta era sobre segregação racial ou sobre decoração de ambientes? "Por capacidade mental (...)", a pergunta era sobre segregação racial ou sobre segregação por incapacidade, invalidez?

Neste mesmo colégio onde exerço essa função de examinador, claro que instituição e alunos ficarão aqui anônimos, aconteceu o próximo caso a ser apresentado. Uma questão de História pedia para o aluno descrever as principais reformas realizadas em Atenas pelo legislador Solon. Este aluno me vem com a seguinte resposta dissertada:

"Solon fez muita coisa em Atenas a favor dos que não tinham direito e beneficiou muita gente. Só que não deu futuro lá aí veio dar aula de matemática no Colégio X."

Detalhe, "Colégio X", que aqui neste texto substitui a expressão original da resposta do aluno, é o colégio onde trabalho, e lá tem um professor de Matemática chamado Solon.
Solon, meu amigo, por que deixaste a área de legislação grega para singelamente lecionar Matemática por esses trópicos de cá? Não entendo.
É... esta é a vida de professor. É a lida de professor.

aspirações inerentes

muito de minhas inspirações
vêm de minhas aspirações

me sinto muito bem quando estou no palco
fico à vontade
me sinto alto

pra fazer
o que quiser
tem que ter
o chão no pé
e a cabeça
lá no céu
vamo nessa,
é tudo seu.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Kiko

Um grande artista da pintura alagoana, digo grande porque é um bom pintor, certa vez me abordou, tirando-me da mesa em que eu estava acompanhado de bons amigos (Fernando Nunes, Teco e Alan Bastos) para conversar sobre a minha música. Conversar não, esculachar minha música. Fiquei surpreso, não pelas críticas – aceito-as muito bem, mas pela forma de abordagem. Levantei de onde estava quando fui abordado, fui bastante educado e o tratei bem, ele veio logo dizendo que minha música não poderia ser rap, até aí tudo bem, já ouvi isso bastante, e que fique bem claro: rap ou não, é música primeiramente, rótulo é pra cerveja, eu sou uma garrafa cheia de um conteúdo inrotulável. O problema é que ele me julgou sem me conhecer, disse que eu não sou da periferia, disse que eu nunca comi rango azedo, portanto não posso fazer rap, porque rap é pra periferia, tudo isso de uma forma desagradável, pedi que se retirasse pois não gostaria de trocar ideia com quem queria somente me agredir e não trocar ideia. Ele ainda estendeu a mão pra mim para encerrar o monólogo, neguei o aperto de mão.
Bom, pode ficar com o rap pra você e pintar miséria com ele, pintor. Outra coisa, no dia que fui abordado foi em um bar que se situa numa área que não é periferia. O que você estava fazendo ali? Nesse mesmo bar, antes de ontem (30/04/2009 – véspera do dia dos trabalhadores), lá estava ele novamente, conversando sobre periferia, de novo, com um dos maiores playboys da cidade que na última eleição foi candidato à vice-prefeito e mora num edifício situado numa das áreas mais nobres de Maceió, vale ressaltar. Ele pode falar de periferia? Novamente, o grande pintor veio falar comigo estendendo a mão e pedindo desculpas pelo que tinha dito no outro dia. Perguntei a ele: você ainda quer que eu aperte sua mão? Novamente, neguei o cumprimento. Ele ainda insistiu que eu apertasse sua mão como um gesto de formalizar as desculpas. Novamente, neguei. Simplesmente, ele me mandou tomar no cu. Respondi: vá tomar no cu você. Além de não apertar minha mão, não dirija a palavra a mim, assim evitamos confrontos e terminamos acertados. E ele se calou. Continue assim. Você calado é um ótimo pintor. Mas falando... Kiko você é.

Manifesto Pi


O Manifesto Pi ingressou na rede mundana.
Manifesto 3,14. 3+1+4=8. 8=infinito.
Soube que o sub subiu de categoria e o under andou pro main da rua.
Eu estou aposentado nas letras. Afinal, a arte da palavra é meu aposento.
O primeiro a chegar ao Brasil foi Catê. Catê quis ação. Eu me intriguei de Catê, pois não me interessava sua ação. Bicho, preguiça era o que eu queria. Só o sol que fazia já provocava “suação”.
Suando frio no calor tropical por influenza.
Doenças de além-mar transformadas em epidemias culturais.
Influência carnívora de nossos primitivos ancestrais. Influência primitiva de nossos carnívoros ancestrais. Influência ancestral de nossos primitivos carnívoros. E vice-versa.
O Manifesto Pi é a favor da ironia. Quer morrer atropelado por uma ambulância. Quer ser o motorista de ônibus que tem que pegar o ônibus no ponto depois de bater o ponto. Quer ser o médico doente. Quer ser o padeiro que não tem o pão nosso de cada dia.
Espelho, espelho meu, existe alguém mais tu/ele/nós/vós/eles do que eu?
O tupi guarani tomou pitu com guaraná. Virou bicho. Lobisomem guará.
O índio usa cocar. O rei usa coroa. O padre, coroinha.
Este último indivíduo, en(di)vi(d)ado de deus, abençoa a monogamia, até que a morte separe, e excomunga a pedofilia, varrendo toda sujeira para debaixo da batina.
Inversão de valores. Qual o valor da inversão? A aversão é de grátis!
Façam suas apostas. O menor lance único não leva nada.
Pra tá ligeiro é necessário talento.