quinta-feira, 30 de julho de 2009

TUPI FUSÃO

Letra: Vitor Pi

VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
Em tupi, entupiu
Canibal deglutiu
Tio samba aglutinou
Tu que viu, viu
Quem viu, quem degustou
Gostou do que sentiu
Digeriu, arrotou
Canja de laranja, casca de galinha
Isca de polícia, farda de sardinha
A carapuça serviu
A batina caiu
Bloco carnavalesco, pitoresco Brasil
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
Pintura rupestre, tinta nanquim
Índio nordeste, tupiniquim
Camisa da Levi’s e calça jeans
No lugar de flecha, bala e fuzis
Sequestro do chefe da fundação
Na mesma língua, sem confusão
Na mesma moeda, a negociação
Capital estrangeiro, pajé, capitão
Pé d’água, toró, como chovia
De português, o tupi se vestia
Se fosse no sol, tu se despia
E dispensaria a hierarquia
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
No verso aversão à imposição
Servo, sou não, faço a exposição
Sobre condicionamento e catequização
Pobre estamento, mais injusta divisão
Nobres no convés e os negros no porão
Conte de um até dez e prenda a respiração
Quem controla o passado tem o futuro à mão
Conheça sua História, não durma, irmão
Fique esperto, liberto de qualquer exploração
Mais perto do certo, andar com atenção
Antropofagia pra fugir da tensão
Sardinha no cardápio pra fazer a digestão
Como não? Como sim, é apropriação
Nossa risada no fim tem mais sensação
A resistência é a própria ação
A hora da virada é a nossa sanção
VITOR PI
VIM EM TUPI
PRA ENTUPIR DE IDEIA
A CABEÇA DE TODA TRUPE
Vitor Pi, vim em tupi, pra entupir de ideia a cabeça de toda trupe
Vitor Pi, versão tupi, pra entupir de ideia a cabeça de toda trupe

A célula desta letra surge numa certa madrugada quando eu pulo da cama com os versos do refrão martelando minha cabeça, levanto para anotá-los e posteriormente fazê-los martelar a cabeça de toda trupe. A letra em si é um aglomerado de situações que nos fazem Brasil, os sincretismos racial e cultural da miscigenação índio, preto e branco, e como a colonização se moderniza a cada dia. Situações que dirigem a temática do disco como um todo, então essa música vem logo como uma porrada depois da faixa de introdução para apresentar o que vai ser a obra. Há nesta letra, na terceira estrofe, um verso (quem controla o passado tem o futuro à mão) que é uma referência à obra 1984, de autoria de George Orwell, nessa obra ele diz que "quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado". Há também uma referência (uma deglutição) a um poema de Oswald de Andrade intitulado “Erro de português”, no final da segunda estrofe, observem. Eis o poema:
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

LÍNGUA GERAL

Letra: Vitor Pi

Folclore, cultura, postura popular
Pra manifestar o cerebelo, pra pular
Pedra, inha; planta, cana; água, pi
Naquela árvore não pousa jacuí
Só ara poia aca, Arapiraca
Beirando o moeru-gui-i, Maragogi
Pousam periquitos, voam mosquitos
Nos cílios do Igaci
Cururugi vai chegar, é só seguir o Roteiro
Dom Pero Fernandes achava-se perdido
Em terras da tribo, mero estrangeiro
Programa de índio, um pedaço do peito
Um pedaço do braço eu aceito
Preso e cercado como um peixe no igarapé
Tudo bom, Dom? Eu sou caeté
LÍNGUA GERAL, ARTE REAL
DA CORTE AO CORTE ARTERIAL
LÍNGUA GERAL, ARTERIAL
DA CORTE AO CORTE, ARTE REAL
Pode começar a rezar
Diante do jaciobá
Livrai-nos do mal, saravá
O pai vosso não vai salvar
Salve, selva, salto, solto, saiba sabiá
Urupê, traipu, sucuri, uruçu, maracajá, tracajá
Pra temperar, jurema e urucu
Urupema açu pra peneirar
Quero o Quebrangulo reunido
O jantar vai ser servido
É hora de atacar
LÍNGUA GERAL, ARTE REAL
DA CORTE AO CORTE ARTERIAL
LÍNGUA GERAL, ARTERIAL
DA CORTE AO CORTE, ARTE REAL
Iguaria sem igual, português com sotaque afro-indígena
No Brasil, língua geral, dialeto mascavo, miscigena

Língua geral, assim os colonizadores batizaram a língua que era falada pelos nativos quando aqui aportaram. A maior parte dos indígenas no litoral brasileiro falava o tupi, mas com algumas variações de tribo para tribo à medida que elas geograficamente iam se afastando, chegando a ter vários dialetos e línguas tribais diferentes. Mas o colonizador chamou toda aquela salada linguística de língua geral. Esta letra, além de citar o fatídico episódio da deglutição do bispo Dom Pero Fernandes Sardinha pelos caetés, tenta resgatar algumas expressões desses dialetos misturando-as com a língua portuguesa, trazendo à artéria de nossa linguagem a realeza de nossa arte miscigenada.

DIVÓRCIO

Letra: Vitor Pi e Beto Brito

Me casei com uma gringa chegada ao Brasil
Aprendeu minha língua, logo descobriu
Que o nativo da ginga era vadio
E se evadiu, se evadiu
Abriu do negócio, partiu
Pediu o divórcio, sumiu
Com mais de mil, ninguém viu
E eu no meu ócio, viril
Com mais de mil produções
Ócio do ofício, paixões
Uma em cada parte do mundo
Viajante que vaga, um vagabundo
À procura de mais uma dama
Que eu possa levar para a cama
Aumentando, assim, minha fama
Oh, meu amor, diz que me ama
Ô, COISA BOA, QUEBRAR O PADRÃO
VIVER SEM PATROA, SER O PATRÃO
VIVER À TOA, AMOR PAGÃO
LEALDADE, SIM; FIDELIDADE, NÃO
Tu quebra o quadril, tu quebra o quadril
Mas não quebra tão bem quanto no Brasil
Carnaval, futebol, ritmo-fusão
O Brasil é rei, sempre campeão
Com você foi paixão à primeira ouvida
Mas meu amor é de forma promíscua
Te dou a moral de ser oficial
Mas minhas negas, cadeira cativa
Você não me entende
Mas vou explicar
Quando chego no samba
Logo salta ao olhar
Pois boêmio que é bamba
Não suporta ficar
Com uma só dama
Toda noite a dançar
Eu te digo a verdade
Pode acreditar
Só passeio com outras
Com você vou ficar
Tenho identidade
Então posso falar
Vou mesclando as raças
Minha ginga é o que há
Ô, COISA BOA, QUEBRAR O PADRÃO
VIVER SEM PATROA, SER O PATRÃO
VIVER À TOA, AMOR PAGÃO
LEALDADE, SIM; FIDELIDADE, NÃO

É bem verdade que minha mulher não ficou nada feliz com esta letra, mas explicarei aqui o que já a expliquei (e que mesmo assim não foi muito bem digerido por ela). O divórcio aqui proposto é com a unilateralidade artística. Geralmente o que acontece é que o artista prende-se exclusivamente ao seu tipo de arte e não enxerga além do seu próprio horizonte, é uma espécie de antolhos artísticos. Aqui eu proponho um divórcio com o rap, pois eu quero imprimir mistura, miscigenação (eis a proposta do disco), flertar com outras vertentes musicais, inclusive essa música vai até numa levada samba para quebrar o padrão. Apresento agora, através dos próprios versos desta letra, indícios dessa intenção: quando digo que casei com uma gringa, essa gringa é o rap, pois é a veia principal da minha música, chego até a declarar que quando conheci o rap foi paixão à primeira ouvida, mas quando ele descobre que eu quero flertar com outras vertentes logo pede o divórcio, porque percebe que eu não quero ter uma monogamia artística. Posso até ser leal, mas nunca fiel, não sou artista de um único estilo, por isso digo que dou ao rap a moral de ser oficial, mas minhas negas (outros estilos) terão sempre cadeira cativa em minha produção. É a Antropofagia que vem desde o primeiro disco sendo exaltada, aqui mais veementemente. Quando digo “tu quebra o quadril, mas não quebra tão bem quanto no Brasil”, quer dizer o seguinte: a expressão hip hop significa quebra de quadril, por causa da dança urbana, mas esse quadril não (re)quebra tão bem quanto o nosso samba que direto da senzala explode o mundo em devaneios artísticos. Ou seja, todos os momentos da letra que falam em mulher leiam-se estilos, ritmos, outras vertentes que não o rap. E na parceria da composição, Beto Brito fecha tal intenção: “Só passeio com outras, com você vou ficar, tenho identidade, então posso falar, vou mesclando as raças, minha ginga é o que há”.

CARNE E AVAL

Letra: Vitor Pi

O sabadão se revela
Chega Zé Pereira de caravela
“terra à vista, acende uma vela
pagamos à vista o preço desta terra”
100% de desconto no conto do vigário
De um a outro ponto já vão 5 centenários
“sois cristão?” o Zé Pereira preguntou
Mim, não! O guarani retrucou
“não sois cristão?” o Zé Pereira se espantou
“então, sois pagão” o Zé Pereira emendou
Pagão, pagador
Salvação, salvador
Dali pra aqui, de lá pra cá
Quem vai salvar? Quem vai pagar?
Em vão, devedor
São Tupi, errou
Divindade dali, pajelança de cá
Tupã, candomblé, babalorixá
Liberdade e libertinagem, vamos confundir
Vamos comer carne e todo o mundo fundir
Hmmm... jejum, passo mal
Você tem a carne e eu tenho o aval. Carnaval!
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
CANHEM BABÁ CANHEM BABÁ CUM CUM!
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
E FIZERAM O CARNAVAL, CARNELEVARIUM
A quarta-feira é de cinzas
Então pisa que desaparece
Aos desavisados avisa
O povo visa que o ano comece
No meio da folia aparece
Quase tudo
Quase nua, qualquer rua
Carne vale, pleno entrudo
Mudo quando vou pro cume
No perfume que é lançado
No estado alterado
Pra bem alto rume
“contrariando a vontade de deus
este povo pagão está fadado aos seus
mundanos costumes
achando-se imunes
pecadores, imundos plebeus”
Silvícola ateu?
Bebo o sangue de Cristo
Minha tribo sou eu!
Como a carne do bispo em posta
Proposta que o diabo gosta
Encosta e canta:
Aleluia! A semana é santa
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
CANHEM BABÁ CANHEM BABÁ CUM CUM!
TERERÊ TETÊ QUIZÁ QUIZÁ QUECÊ!
E FIZERAM O CARNAVAL, CARNELEVARIUM

Mais uma vez apresento, através desta, a mistureba que é o Brasil e como o povo brasileiro consegue de situações adversas fazer festa. Pesquisando sobre a origem do carnaval (como bom brasileiro que sou, minha festa preferida no ano) me deparo com o que, na verdade, já sabia, festa de cunho religioso e dissimulada folcloricamente pelo povo. Carnelevarium, expressão que em latim quer dizer carne vale, a época que é liberado o consumo de carne para depois de uma quarentena jejuar e pedir perdão pelos pecados numa semana declarada santa. Assim é o Brasil, vamos fazer festa que amanhã a gente se vira, deus proverá, livrai-nos do mal, amém. E o homem segue crendo na criação divina, enquanto o divino segue criação humana. Ao longo da História, sopro inerente e hereditário de esperança. Além dessa pesquisa, de fundamental importância nesta composição foi o poema de Oswald de Andrade (mais uma vez em meu aparelho digestivo) chamado “brasil”. Eis o poema:
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

EXTINÇÃO ABUNDANTE (CADEIA ALIMENTAR)

Letra: Vitor Pi

EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Corro do socorro, faço minha correria
Mato a grito cachorro e um leão por dia
A fauna financeira corre risco de extinção
Ecologia desequilibrada no bolso do cidadão
Cueca de empresário, pasta de pastor
O financeiro em cativeiro não é reprodutor
Monopólio monetário, título: doutor
Não traz mais amor nenhum beija-flor
Só o melzinho é o que ele suga
Chega de mansinho igual tartaruga
Há 500 anos sempre em fuga
Tanto tempo no cargo, já criou ruga
A carapuça cai como luva
A carapaça vai sempre dura
Na leveza e graça de uma garça
Percebe-se que nada vem de graça
Quanto mais batalha a recompensa é mais rara
É pra virar fera, pra ficar uma arara
Trabalho noite e dia e ainda faço bico
Pra ganhar 20 conto às vezes pago mico
Mas se for pra encher a pança
Aí eu sou até amigo da onça
Tenho que dar conta quando chego em casa
Para alimentar cinco bocas
Quando o apurado é só uma piaba
Tenho que transformá-la em garoupa
E se vacilar? O jacaré abraça
Aí você fica de touca
EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Corro do socorro, faço minha correria
Pra poder botar na mesa o feijão nosso de cada dia
Assando e comendo, comendo o que me sobra
Leite de pedra, pau pra toda obra
Moro aglomerado num moquiço do cortiço
Casa de pombo, de rato e outros bichos
Trabalho num zoológico: na portaria do edifício
Bichos exóticos, peruas e suínos
Controlo a entrada e a saída
E também o horário de visita
Meio dia, entrega da comida
Lavagem para os porcos, pros abutres a carniça
Pras hienas de botox, sempre sorridentes
Caras esticadas a mostrar os dentes
Contentes com os restos da lavagem
Lavagem financeira que garante a imagem
Um dia decidi não ser mais cúmplice de tudo
Decidi falar e não ficar mudo
Voz pronunciada, voz de assalto
O preço que paguei foi um tanto alto
Aquele dinheiro espalhado pelo chão
Não caiu do céu, caiu da minha mão
Dinheiro sujo, sujo de sangue
Espécies se extinguem, outras se expandem
EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Na cadeia alimentar
É assim que funciona
O mais alto patamar
Permite que se coma
Manter-se em nível inferior
É certeza de tornar-se vítima do predador
Lei da natureza, da natureza humana
O globo cada vez mais aquece
Então vê se não esquece
É quente, não desanda
A minha parte eu quero em espécie
EXTINÇÃO ABUNDANTE
FARTURA, MUITO POUCO
QUEM FATURA MUITO POUCO
VIVE NO MONTE
AOS MONTES NO MORRO
MORRE-NÃO-MORRE
FICA OU CORRE?
EU CORRO!/SOCORRO!
Na cadeia alimentar há
Uma reação em cadeia elementar

Nesta letra vamos encontrar uma abordagem de aspectos mais urbanos, desigualdade social, a correria do dia-a-dia do cidadão que vive assando e comendo, como se diz no dito popular. Apesar da letra falar muito em extinção de várias espécies, essa fauna que eu abordo aqui é a fauna financeira. Nossas cédulas têm, cada uma, um exemplar de nossa fauna: R$1 beija-flor, R$2 tartaruga-marinha, R$5 garça, R$10 arara, R$20 mico-leão dourado, R$50 onça-pintada, R$100 garoupa. E essa fauna está em extinção no bolso do cidadão comum, levando-o muitas vezes a partir para o desespero. Eu tenho uma tatuagem que contém todas essas espécies, essa letra resume o significado dessa tatuagem pra mim, o porquê de ter feito ela. A exemplo do disco anterior, a música “O palhaço” resume também uma outra tatuagem minha.

SIGA LÁ

Letra: Vitor Pi

SIGA LÁ, SIGA LÁ
DIZEM AS MÁS LÍNGUAS, MAS
QUE LÍNGUA É MÁ? QUE LÍNGUA É MÁ?
A QUE LUDIBRIA
Ah, se eu falasse a língua dos anjos
Meus versos seriam tocados a banjos
Mas minha leitura é pouca, não manjo
Na língua geral, então, me arranjo
José de Anchieta, um zé jesuíta
Diz minha língua a do satanás
Nos autos, a portuguesa é divina
Prefiro meus versos a la maracás
Que língua é essa que ludibria
e diz que jamais mentirás?
Sete palmos de língua comprida
Ih... faz o sinal da cruz a quem jaz
Artigos e leis, advocacia
Brincando de deus, me condenarás
Sua criação é supremacia
Ao dizer: deus é mais
SIGA LÁ, SIGA LÁ
DIZEM AS MÁS LÍNGUAS, MAS
QUE LÍNGUA É MÁ? QUE LÍNGUA É MÁ?
A QUE LUDIBRIA
FMI e CPI
FGTS com IPI
MST quer a fazenda
E do PIB a renda
De camarote na UTI
Terras daqui, terras sem fim
Deixaram sem T o meu curumim
Arrenda o não, empenha o sim
IPTU para t-u-p-i?
Tu pediu para aqui construir?
Não pago por aquilo que me
Quilometricamente pertence
Só vence, pai, o que não cai
De pé o pajé quebrando a FUNAI
Representa o de menos que um dia foi mais
IBGE, carta de Pero Vaz
RG, CPF, blefes de mim
O verdadeiro eu, eis-me aqui
Vem de sermão cifrado em latim
Eu lavro o BO em xocó cariri
o V é de Vi, o P é de Pi
e UNIDADE
SIGA LÁ, SIGA LÁ
DIZEM AS MÁS LÍNGUAS, MAS
QUE LÍNGUA É MÁ? QUE LÍNGUA É MÁ?
A QUE LUDIBRIA

Aqui eu tento fazer um questionamento sobre o ditado “dizem as más línguas”. Que língua é má? Esta é uma boa pergunta, se considerarmos que se comunicar (tornar comum) é algo muito saudável. Ainda no século XVI, a Companhia de Jesus, órgão da igreja católica que ia até as terras recém conquistadas com a missão de catequizar os povos nativos, chega ao Brasil com seu principal representante, José de Anchieta. Este jesuíta, que foi um grande estudioso da língua indígena brasileira, chegando a escrever um Dicionário de Língua Tupi, usou de artifícios como os autos, teatro que representa comemorações e festividades católicas, para ludibriar os índios e convertê-los a sua religião. Nas representações, geralmente permeadas por duelos entre anjos e demônios, os anjos falavam a língua portuguesa enquanto os demônios falavam tupi. Já pensou? Dessa forma o índio foi forçado a acreditar que precisava se salvar aprendendo a língua do colonizador, se salvar de quê? Todo povo tem seus deuses e cada um tem seus demônios... Essa sim é uma má língua, uma comunicação que ludibria outrem, assim como a infinidade de siglas que todos os dias nos ludibriam dizendo siga lá, e seguimos o divino caminho rumo ao inferno.

SINISTRO

Letra: Vitor Pi, Artur Finizola e Wado

Todo mundo tem direito de estar direito
Seja canhoto ou certo
Mas é que tudo está errado
Um todo errado, pois o esquerdo é ambidestro
AMBICANHOTO E AMBIDESTRO
UM TODO ERRADO E OUTRO CERTO
Acordar com o pé direito, pois se é esquerdo
Tua jornada é inferno
E no canhoto do teu cheque um zero à esquerda
E no outro, muitos zeros
AMBICANHOTO E AMBIDESTRO
UM TODO ERRADO E OUTRO CERTO
A localização nem tão à esquerda
Assim do coração
À esquerda, mas nem tanto
O coração ao centro-esquerdo
No peito diálogo coalizão
No centro-esquerdo o coração
Prática política oblíqua
Orgânica destreza despreza
Prática, orgânica

A letra desta música surge de uma forma bastante curiosa. Eu estava a fim de dividir uma composição com o Wado e o intimei para que fizéssemos algo. Nesta época ele tinha quebrado o pulso esquerdo e estava escrevendo com a mão direita - a mão dele que não é “boa”, refletindo sobre essa questão de lados. Eu também sempre me intriguei com essa questão, é verdade que não precisei quebrar o pulso para escrever sobre o assunto, mas já tinha algo escrito sobre o que é direito ser certo e o que é esquerdo ser sempre considerado o do contra, o errado. Como na política, a direita é conservadora, a esquerda é anárquica, é errada, é contra a ordem, assim é formalmente determinado. Eu tinha passado esses versos que havia escrito com essa temática para meu parceiro de sempre Artur Finizola, para ele musicar, e ele deu uma mexida neles para enquadrá-los melhor sonoramente. Pronto, juntamos tudo e fizemos esse som. Ah, e o título, por que sinistro? Sinistro em italiano, língua latina como a nossa, quer dizer esquerdo. É sinistro, rapaz!

INDEX

Letra: Vitor Pi e Beto Brito

Ainda lembro da História
Entre o tempo e a memória
Permaneço, continuo por aqui
Fiquei abestalhado
Fiquei impressionado
Perplexo, pressionado com o que vi
Ninguém imaginava
A chegada de uma esquadra
Do nada, apareceu, veio assim
Sua vinda, cara pálida
Foi um tanto válida
Em termos, posso dizer que sim
Mas também eu te digo
Se tu não tivesse vindo
Bom, não estaria tão ruim
Dizendo algo desse tipo
Eu sei, muitos amigos
Ha, ha! Vão rir de mim
Mas tem dois lados a moeda
Só quero trocar ideia
Pôr em pauta, apenas discutir
A natureza alterada
Doenças espalhadas
Tribos, várias, viram seu fim
Culturas dizimadas
Mulheres estupradas
Riquezas roubadas, e aí?
Por outro lado, seu código
Foi decodificado, é lógico
A ler aprendi
DEVOLVA MEUS LIVROS, POIS MESMO NÃO LIDOS
EU SEI QUE SÃO MEUS
DEVOLVA MEUS CACOS, POIS MESMO QUEBRADO
EU SEI QUE SOU EU
Dentro do monastério
Ronda muito mistério
A sala secreta é bem aqui
Só monges seletos
Têm o acesso
É uma biblioteca que eu vi
Exemplares manuscritos
Sendo revistos
Alguns proibidos, bem assim
O nome da rosa
É o nome da obra
Umberto Eco, esse aí eu li sim
Igreja católica
Censura hipócrita
Monopólio, isso é ruim
Você chegou com uma missão
De salvar um povo pagão
Imposição que foi feita a mim
Só seu deus é o que salva
e purifica a alma?
Calma, eu queria discutir
Mas não teve argumento
Os anos de 1500
Novos tempos, começo do fim
Já que você é todo arte
Vou comer a sua carne
É o que me cabe, mim não tá nem aí
Através da sua chacina
Uma lição você me ensina
Vingança cultural, aprendi
DEVOLVA MEUS LIVROS, POIS MESMO NÃO LIDOS
EU SEI QUE SÃO MEUS
DEVOLVA MEUS CACOS, POIS MESMO QUEBRADO
EU SEI QUE SOU EU

Em mais uma parceria com Beto Brito, que me cedeu os versos que compõem este refrão, escrevi uma letra que trata de um outro episódio vergonhoso protagonizado pela igreja católica ao longo da História, o monopólio de informação. Puxando pela memória, vocês hão de lembrar que além da santa inquisição, da venda de indulgências e coisas do gênero, a igreja tinha um órgão censor que só liberava as obras que não contestassem nenhum de seus dogmas. Foi criada, então, uma lista conhecida como Index Librorum Prohibitorum (índice de livros proibidos) que vetava a divulgação de certos trabalhos de determinados autores. Naquela época não havia ainda a imprensa, então cada exemplar era praticamente único, quando não era único tinha-se uma ou duas cópias manuais do exemplar, acrescidas ou decrescidas de informação conforme fosse o interesse da alta cúpula clerical. Há na letra a citação de uma obra, O nome da rosa, de um escritor italiano chamado Umberto Eco, que relata essa passagem da História. Obra que foi adaptada para o cinema com o mesmo título, no elenco aparecem Sean Connery e Cristhian Slater. E uma curiosidade na construção poética da letra é que todas as palavras que fecham as ideias nos versos da primeira estrofe (aqui, vi, assim, sim, ruim, mim, discutir, fim, aí, aprendi) são as mesmas na segunda.

VERSOS NEGROS

Letra: Vitor Pi

Palavras têm força demais, mudam até de sentido
Se transportadas pra outro contexto adquirem negativas cargas
Já abordei tal assunto em um outro som
Aquilo que fica do lado esquerdo tem conotação de errado
O mesmo acontece com uma das cores
Aquilo que remete ao preto tem semântica de sinistro
A situação tá preta, a peste negra invadiu
No mausoléu despedida trajada de negro representa luto
Se branco é cor de paz, decreto preto fúria
A pele tomada pela melanina não sabe o que é paz pelo alvo
Se branco é cor de paz, piada de humor negro
A pele tomada pela melanina não sabe o que é paz pelo alvo
Versos que não rimam são chamados de versos brancos
Mas no atributo de um novo sentido, designo versos negros

Esta letra traz o contexto afro. Questiona o fato sócio-linguístico da cor negra ser designada para tudo que é ruim (piada de humor negro, a situação tá preta, peste negra etc.). Assim como é o caso do lado esquerdo, abordado na música “Sinistro”. Há aqui, inclusive, uma citação a ela nos terceiro e quarto versos. Versos que não rimam, na literatura são chamados de versos brancos, aproveitei a situação para escrever uma letra construída em cima de versos brancos que trouxesse nesses versos uma temática negra, tornando tais versos, brancos na composição literária, em versos negros, no conteúdo. Um rap sem rima? Oh... Basta métrica. Dessa forma, ratificando que rap é poesia e ritmo, não necessariamente rima.

ABAPORU SELF SERVE-SE

Letra: Vitor Pi

Arte – carne é meu depart
E da parte faz-se o todo
Para o rodo do enfarte
Pé no lodo, apartheid
Causa mortis, cred card
Vida, dívida, embarque
A defesa é ataque
Copo d’água, tempestade
Em pleno desmantelo
Apresento imunidade
Ameríndio quer espelho
Para a face da verdade
Filé é carne nobre
Na boutique do abate
Caeté não quer que sobre
Nem sequer um abade
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO
Uma morte, um alarde
Para muitos já foi tarde
Para outros vira mártir
O cacique kamikaze
A cobra vai fumar
A onça, beber água
E na oca vai entrar
Uma índia de anágua
Vai fazer strip tease
Para seu abaporu
Não adiantou o nome
Na boca do cururu
Ela quer monogamia
Quer que ele se aquiete
E ele foge da monotonia
Várias tribos pelo chat
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO
O urubu e a carniça
O fogo e a fumaça
Do bicho-preguiça
Só sobrou a carcaça
O fogo na floresta
Que faz dela pasto
Faz naquela festa
O gado virar churrasco
A flecha era espeto
A reserva era rancho
O índio era preto
Agora brinca de branco
A flecha era espeto
A reserva era rancho
Índio, preto, branco
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO
O homem que come
Ele mesmo se serve
Nunca passa fome
Assim que nós veve
Um receptor
Para minha parabólica
Camila, pitanga
Batida com vodka
Tupi guarani
Paricá, rapé
Pitu, guaraná
Oxalá, xequeté
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, EM VÉRTICE
AMOR E ÓDIO
O HOMEM QUE COME SELF SERVE-SE
A SI PRÓPRIO
REDUNDANTEMENTE, INVERTE-SE
AMOR EM ÓDIO

Nesta letra temos um contexto semelhante à Tupi fusão, a modernização da colonização. Adaptação aos instrumentos do colonizador, fazendo uso e se tornando parte todos os dias do motor histórico, inclusive no âmbito das línguas que se fundem quase que de forma orgânica. Por isso o título Abaporu self serve-se, aqui você encontra três línguas dividindo uma mesma expressão e causando uma ênfase na mensagem através de uma redundância sintática. Abaporu (em tupi quer dizer o homem que come), self (pronome reflexivo da língua inglesa que quer dizer si) e serve-se (expressão reflexiva da língua portuguesa, servir a si mesmo). Há também nesta letra uma referência ao escritor modernista Mário de Andrade e à sua obra Macunaíma, na qual o índio Macunaíma nasce preto e depois se torna branco (o índio era preto, agora brinca de branco).

U.N.I.D.A.D.E.

Letra: Vitor Pi

Atenção, atenção! Mensagem positiva
Deixa eu explicar qual é de mermo dessa rima
Mastigo, mastigo, e aproprio o que interessa
Faço uso do filtro e exproprio o que não presta
Faço referências e deixo evidente
Antropofagia determina o estilo da gente
Estilo louco, inteligente
Sua percepção não compreende
Se não compreende, então tente
A porta foi feita pra você, abra e entre
Se não tentar não consegue, fenece
Ao que me parece, a ignorância prevalece
Disseram que o meu som não era rap
Com segregação o movimento não cresce
Mas deixe para lá, isso aí a gente esquece
Não faço questão de fazer parte dessa espécie
Comédia tem inveja, porque sabe que o meu som é fora de série
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA O ESTILO DA GENTE
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA, O ESTILO É QUENTE
Parcerias vão e vêm
Começam bem, nem sempre acabam bem
Se bem que também estarei sempre além
Sem olhar a quem
Não devo nada a ninguém
“one good thing about music, when it hits you feel no pain”
Não gostou do que falei?
Ora, ora, quem falou foi Bob Marley
E agora, vai tratar com desdém?
A ideia que me vem
É que música é harém
Minha postura se mantém
Porque não sirvo às artes, são elas que me servem
Promiscuidade inata, o artista tem
Variedade alta, são mais de cem
Aquele que é fiel e só faz o que convém
Não vai pro céu, vai morrer virgem
Enquanto o jesuíta catequiza e diz amém
Os caetés salivam e o comem
Sardinha enlatada, já dispensei
Pra batina manjada nova roupagem
Não preciso de pajem
Pois sou pajé
E tu, o que é?
Submisso, aquém
Muito aquém
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA O ESTILO DA GENTE
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA, O ESTILO É QUENTE
O hip hop é de ninguém, não tem dono
O hip hop é de ninguém, é de todos
Quem é você pra dizer o que devo fazer?
Você é doido
Faço dele o que quiser, pois é
Isso aqui é um microfone e não um picolé
Sua vida imita a arte, minh’arte imita a vida
Nunca ouve da minha parte mensagem fictícia
Visão separatista, nunca houve da minha parte
A arte imita a vida, pois viver é uma arte
Por que falo em parte se pretendo unidade?
Partindo do princípio que apartheid é uma verdade
Pra ficar mais claro, catei no dicionário
A palavra gueto e seu significado
Bairro onde os judeus moravam obrigados
Lugar onde o povo é confinado
Pra não virar finado tem que andar ligeiro
Libertar-se das correntes, deixar de ser prisioneiro
Não sou mais escravo, descarto os paradigmas
Então segura tua peruca, zacarias
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA O ESTILO DA GENTE
UNIÃO NÃO INFLUENCIADA DEMAGOGICAMENTE
ANTROPOFAGIA DETERMINA, O ESTILO É QUENTE

Nesta letra podemos observar um desabafo. Aquilo que havia sido explicado na letra “Divórcio”, cabe também aqui. Neguinho do rap fica indignado comigo pelo fato de eu tentar inovar misturando outros estilos ao rap, chegando ao absurdo de me excomungar do movimento, como se pudesse fazê-lo. O rap, o hip hop, não são religiões, não têm dono nem dogmas, são artes, e as artes devem ser usadas como instrumento de expressão e não usar o indivíduo como fazem os clérigos que pregam alienação. Chega de catequização! Eis o meu som, não pretende segregação, e sim u.ni.d.a.d.e., siga lá esta sigla! (União Não Influenciada Demagogicamente, Antropofagia Determina o Estilo).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem perder o niver


Seduzido pela ideia que já me tomava há alguns anos, tentei fazer um evento para comemorar o meu aniversário, na data mesmo do aniversário (20/06/2009), era um sábado. Decidi tentar fazer algo quando apareceu uma persona, conhecida das antigas, que disse estar trabalhando na área de eventos e propôs fazer um evento com nossa banda. Falei para ela dessa ideia que me tomava já há algum tempo, ela automaticamente abraçou a causa e disse estar interessada em realizar o evento.
Realizar? Foi o que pensei. Achei que, como de costume, iria chegar ao local e mandar ver junto com a banda. Neste achar-de-costume foi que começou uma sucessão de erros. Primeiro, fazia-se necessária outra atração, pra dar mais caldo à festa. Aciono rapidamente os parceiros da Xique Baratinho, banda que muito me interessa (música e integrantes), por isso convoco esses camaradas. Beleza. Segundo, um evento tem que ter divulgação. O baixista da XB, pelo fato de trabalhar na imprensa (G7) – a mais conceituada do Estado, me deu toda a força para realizar a divulgação do evento. Jornal e televisão. Enquanto a “realizadora” do evento falava em conseguir espaço em algumas rádios. Não se ouviu nada em nenhuma rádio. A divulgação só foi lida e vista através da imprensa citada. Foi lida e vista, também, não posso deixar de citar, no site de um outro parceiro (www.aiegua.com.br), site conceituado em conteúdo cultural alagoano.
Parceiro este que também foi responsável por idealizar a arte do evento e pela discotecagem no dia festa, não só pelo espaço virtual. Seu aniversário é no dia seguinte ao meu. Então vamos comemorar juntos, vamos fazer a festa!
Ok. Até então, com a ajuda desses camaradas, a coisa ia andando. Com a divulgação encaminhada e com a arte na mão, o que estava faltando? Imprimir a arte (cartazes e panfletos) para colocar na rua. “Realizadora”, quem vai bancar essa impressão? Patrocínio, apoio... Desespero! Nada de dinheiro. Bom, como já estava envolvido até o pescoço e a divulgação já circulava pela rede e pelos jornais na cidade, eu banco a impressão. Junto mais três amigos e vou pra rua colar os cartazes e panfletar. Mais uma vez, os parceiros me salvam. E o som da casa? Não tem bateria. Outra vez o meu bolso é acionado. Ligo para um outro parceiro que trabalha com som e consigo a bateria, num precinho camarada, na pechincha (presente de aniversário). A “realizadora” disse que a casa de shows ia colocar na rua um carro de som anunciando o evento e uma placa na frente do estabelecimento com as informações da festa. Não vi carro nem placa. Na verdade, havia uma placa, anunciando um show de pagode a ser realizado no dia seguinte.
Acabaram os problemas? Eles estavam apenas começando. Você deve estar se perguntando: começando? Apesar dos pesares a divulgação não foi realizada? É, foi sim. Mas havia alguns problemas com os músicos. Nosso guitarrista esqueceu que ia trabalhar num outro evento, realizado ali perto, evento junino da prefeitura (concorrer com esse evento, aliás, foi desleal, diria até estúpido – eu ainda avisei, mas a “realizadora” disse que “nossa galera é alternativa, é outra galera”); nosso baixista tinha que tocar no mesmo horário numa outra casa, ali perto; o baterista da XB tinha que tocar em um outro evento junino, bem longe; o guitarrista da XB vinha de Pernambuco pra tocar no nosso evento e no meio do caminho sofre um acidente, ainda bem que não foi nada fatal, a única fatalidade foi que ele não conseguiu chegar.
E agora? Sem guitarra e sem batera não tem como Xique Baratinho tocar. Cancelada, na hora, a apresentação dos caras. Ingressos que custavam R$ 10 têm que ser reduzidos para R$ 5. Só assim justificaria a insatisfação dos poucos ali presentes. Como nós trabalhamos com um aparato eletrônico em nossa música, levamos o som da guitarra e do baixo no computador. Foi o que nos permitiu tocar e salvar, em parte, o evento.
Agora sim, você deve estar pensando, acabaram os problemas. Mas eu tenho que citar o último problema. Pra gente tocar foi necessário convencer o dono do estabelecimento, que perdeu o nível e queria cancelar o evento. Ele disse, de forma até agressiva, que com a quantidade de pessoas presentes não tinha como arcar com o prejuízo (seguranças, equipamento de som, bebidas etc.). Propus que essa parte acertasse com a “realizadora” do evento, que fechou com ele um negócio de risco, ele aceitou fazer o evento por 20% da bilheteria, aliás, única coisa até aqui de concreto por parte dela, fechar o acordo com o estabelecimento onde foi realizada a festa. Diante de situação tão constrangedora ela pergunta ao dono da casa: “o que você propõe?”. Soou até como ironia aquela indagação, mas uma ironia perceptivelmente despreparada. Tomo à frente mais uma vez e proponho que mesmo fora do esperado realizemos o evento. E realizamos. Eu e meus parceiros, eu e minha família.
No final, foi muito legal. Minha mãe levou bolo e velinhas, cantamos parabéns, sorteamos CDs e tatuagem (apoio de mais outro amigo, tatuador que entrou na parceria), ou seja, tudo que estava previsto no script do evento – exceto a apresentação da XB, foi realizado, em respeito a quem se fez presente no dia, amigos e admiradores do som, sem precisar perder o niver.

Que menino é esse?

Certa vez, num momento de desavença no relacionamento, minha esposa, na época namorada, desabafou no papel escrevendo sobre minha pessoa. Confesso, de textos que divagam a meu respeito este é de longe um dos mais interessantes que já li. "Que menino é esse?", este é o título do texto, abaixo, que ela escreveu.
"Que menino é esse que me dá tanto trabalho? Vixe! Nunca vi igual. Menino "bunito", tinhoso e muito atrevido que me faz passar mal... e como faz. Menino com asas que não fui eu quem deu, já veio com elas desde sempre, e ai daquele que ousar cortá-las pra ver o que acontece. Menino que tem pavor à palavra limite, palavra essa que não consta no seu vocabulário imenso. Menino falante, quase um alto-falante, uma metralhadora ambulante que só para de falar na hora que dá um gole no copo de cerveja. Deve ser característica dos gigolôs finíssimos."