segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

MISSIVA PARA ADRIANA CALCANHOTTO


Maceió, 11 de outubro de 2018

Para a mulher do Pau-Brasil

                Olá, Adriana, chamo-me Vitor Pirralho (como o semanário – O Pirralho – de Oswald de Andrade) e muito me apetece que você receba com carinho este material, minha obra, fruto da folia/orgia/poesia, negócio do ócio também. Sou muito seu fã, comecei a ouvir sua música por influência da minha mãe, sempre que estamos a celebrar algo, até hoje, ela diz “põe Gafanhoto aí pra gente escutar” (rsrs), acredito que outras pessoas também já tenham feito esse jogo sonoro com seu nome.
                Eu também sou professor de literatura, tenho atualmente 36 anos, e componho desde os 16, 17 anos, ou seja, desde 1998, 1999. Até gravei de forma caseira, em 1999, no início dos softwares de música, um “álbum”, o que hoje provavelmente seria chamado de mix tape. Intitulei o projeto como Tallow Soul (esse seria o nome do grupo que eu gostaria de ter montado) e o trabalho de estreia foi batizado como Desordem é progresso. Tem uma faixa desse trabalho (que eu joguei na nuvem, no Soundcloud) que eu até cito isso em um verso “ainda tenho 17”. Nessa época, eu morava em Recife, sou alagoano de nascença, mas filho de pernambucanos que me criaram lá. Costumo dizer que sou “alabucano”. Falando nisso, tem outra faixa nesse trabalho que eu junto versos de O rio e de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, com versos meus. Intitulei a faixa de Saga nordestina. Vi outro dia você dizendo que já tentou musicar algo de João, mas não foi bem sucedida como foi Chico. Pois é, eu também acho que não fui bem sucedido, mas deixei registrado, mesmo que precariamente – tanto na qualidade sonora de uma gravação caseira, que saiu de uma K7 para a posterior digitalização em um CD e depois para a internet, como também na qualidade da composição poética –, acho importante colecionar e arquivar e consultar e revisitar arquivos intelectuais, meus e de quem admiro. Agora estou de volta a Maceió.
                Quando voltei a Maceió, continuei (até hoje estou) na saga nordestina de produzir música e poesia, até que em 2004, ao ser contemplado num edital estadual, que me premiaria com a gravação do meu primeiro álbum de fato, me apresento num show oficialmente como Vitor Pirralho, junto a uma banda que montamos de última hora, a qual nomeei U.N.I.D.A.D.E. (União Não Influenciada Demagogicamente, Antropofagia Determina o Estilo), e com o privilégio de ter sido essa primeira apresentação abertura para o show da Duofel. Magnífica dupla, que tem um alagoano. Tramitações e burocracias governamentais, o disco só veio sair mesmo em 2008. O título: Devoração crítica do legado universal. Extraí essa frase de um artigo de Haroldo de Campos, que definia a Antropofagia cultural. Esse primeiro álbum apresenta já algumas coisas basilares da Antropofagia e do Modernismo como um todo. Por exemplo, a faixa de introdução se chama Prólogo interessantíssimo (numa referência ao Prefácio de Mário), há outra faixa que eu canto “tupi or not tupi, that’s the question” no refrão, e por aí vai, mas não é exatamente um álbum como eu gostaria que fosse, pois eu tive que cumprir algumas cláusulas com as quais me comprometi no edital, o que fez com que o disco ficasse carregado com o ranço ainda da época da Tallow Soul, há muitos versos que inclusive aproveitei do Desordem é progresso, muitas músicas do Devoração ainda carregam imagens, narrativas e agressividade do rap da old school 90’s. Isso aconteceu porque ele deveria ter saído em 2004, quando ganhei o edital, porém só saiu em 2008. Mas registrei!
                Virada de jogo e desapego. No ano seguinte, 2009, fui contemplado num edital do MinC, o Projeto Pixinguinha, sei que esse você também conhece bem. Então eu pude produzir um álbum dentro do período que eu queria, intensamente, sem espaçamento, focado num tema. E assim o fiz. Produzi um álbum conceitual, que eu batizei de Pau-Brasil (eis-me aqui, o homem do Pau-Brasil escrevendo para a mulher), nele eu me desprendo dessa característica mais icônica do rap e mergulho de cabeça nos conceitos antropofágicos, eu gosto muito desse disco, ele é repleto de referências e versos oswaldianos, de discussões sobre o processo de colonização, sobre a formação étnica e cultural do povo brasileiro, é mais bem produzido, tem um projeto gráfico lindo, enfim, e o ápice de tudo isso é quando Ney Matogrosso decide gravar desse álbum, e grava, a música Tupi fusão. Já ouviu? Ele gravou em seu último trabalho de estúdio, Atento aos sinais. Deu uma belíssima interpretação a ela. Acredito que você vá gostar do Pau-Brasil, trabalho que coincide (?) com o seu mais recente.
                      Já o protótipo que você tem em mãos, te apresento em primeira mão, será o meu novo álbum. A invenção é a mãe das necessidades. Esse está muito bonito. Tem participações de Zeca Baleiro, Ellen Oléria, Pedro Luís (amo a canção Mão e luva que você gravou, aliás, amo o Maritmo inteiro!*), Tonho Crocco (seu conterrâneo, fundador da banda Ultramen, lá do RS) e uma inédita que eu compus para fazer com Ney Matogrosso, essa música terá também um clipe com o próprio Ney atuando, já filmamos, lançaremos junto com o disco. É isso. Também está uma lindeza esse álbum, ele traz discussões dessa atual geração, da velocidade e da futilidade das informações, de como a contemporaneidade inverte o papel da necessidade como matriarca das invenções para as tecnológicas invenções ditando nossas necessidades atualmente. Espero que você tenha uma ótima deglutição.
                Pois bem, Adriana, se te interessar a tessitura da minha obra, entra em contato comigo, num futuro breve, quem sabe, poderíamos processar uma parceria lírico-musical. Seria, para mim, mais um sonho realizado no âmbito da poesia/música. Eu gosto muito da canção Senhas, sempre tive vontade de dar a ela uma versão minha, acho que ela tem uma pegada agressiva, mas com elegância, que ficaria bem ajustada num rap com a minha interpretação. Mas isso é só uma ideia, a ideia fundamental é compor algo inédito contigo.

*Conversei bastante com Sacha Amback sobre esse disco, ele está em quase todas as faixas, não é mesmo? É lindo demais esse trabalho. Ficamos a nos deliciar ao analisá-lo naquela ocasião. Sacha é uma figura da mais alta nobreza e generosidade. Até hoje ele me “deve” a ponte de te conhecer, ele disse que tentaria me apresentar a você, mas como há muito ele não entra em contato contigo, não me deu garantias. Bom, cá estamos.

Meus contatos:
82 9****-**11
vitorpirralho@gmail.com
manifestopi.blogspot.com / Redes sociais e plataformas digitais: Vitor Pirralho

P.S: Perdoe-me se uma missiva digitada ao invés de manuscrita possa soar com frieza, mas é que de tanto escrever eu desenvolvi um problema no tendão do antebraço, sempre que escrevo de próprio punho em demasia, é como uma cãibra, trava tudo e dói.

Atenciosa e carinhosamente, Vitor Pirralho

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

NOVE NOV. (ou Não presta pra nada!)


Depois do 8
O 9
Uns 10 km de caminhada
Longa
Longo vestido
Longos cabelos
Blusa azul do ladrão
Beijo roubado
Bem que se kiss
Fuzilamento ocular de um busto sinal
Sinais...

Coesão incoerente
Ou
Incoesa coerência
Ou
Gramática vs. Literatura
Ou...
Não queríamos ou
Sempre quisemos e
Mas temos vivido ou
Um
Ou
Outro

Isso nos faz infelizes
No mais feliz dos achados:
Um e outro
Juntos
Resolveremos juntos?
Não cumprimos promessas
Lento eu, tu às pressas
Tempo rei, tempo fim

A fim de celebrar o ponto de partida
Atropelamos as vírgulas
Abusamos das exclamações
Intimamos com interrogações
E querer ter sempre a última palavra
Conduz-nos cada vez mais ao ponto final
  
Ninguém quer
Os que têm e os que não têm fé
Ninguém quer
Ninguém que...
Ninguém

Tal vã vaguidão
Vem de sofreguidão
Inútil tentar entender
Apenas não esqueça
Mesmo que outro outro te faça feliz
Leve-me leve
Releve minhas (des)necessidades
Como esta aqui

Mais um poema que não será lido
Tampouco analisado
Sentado e sentido
Faz sentido
Como eu me sinto?
Não presta pra nada!

terça-feira, 22 de maio de 2018

UM NÓS


Pegos assim, assim de surpresa
Beleza e mesa, hashi
Cama e banho, tamanho de deusa
Gigante como nunca vi
Atamos um nó, processamos um nós
Dali só queríamos ficar a sós
Mas logo após viriam mais nós
Dois de nós que virariam sóis
Não brilhariam, não teriam porvir
Por terem sido escolhidos para servir
Dali eu só quis cada um por si
E eu fiz pior, desapareci

Nossos atos atam nós cegos
E cegos não desatam nós
O nós só precisa de um verbo
O qual conjugamos a sós

Afinidades, finais de tardes chuvosas
Invadem e fazem um mar de pólvora
Explode, expõe, põe pra fora
O que outrora era da hora
E agora, que horas são?
E agora, que oração?
Incrédulos não fazem oração
Fazem hora no coração
Dependem do vento e seus nós
Velejar oscilante, no peito o nó
Ex põe pra fora angústia e dó
Era só pra ser e não pra ser só

Nossos atos atam nós cegos
E cegos não desatam nós
O nós só precisa de um verbo
O qual conjugamos a sós


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O FUTEBOL É FEITO DE PESSOAS

O futebol é feito por pessoas, é, portanto, feito de pessoas. Tudo aquilo que é feito por seres humanos tem, por conseguinte, o próprio ser humano naquilo. Parece que o meio de campo embolou, não é mesmo? Então vamos clarear essa jogada e pôr a bola para frente. Pensemos num projeto arquitetônico, por exemplo, ele é idealizado e executado por pessoas, e nele está o próprio ser humano, representando uma época e seus valores, atravessando o tempo e contando histórias da humanidade, e também da desumanidade, afinal, muitas construções foram erguidas para enclausurar e arrancar a humanidade das pessoas. Então pensemos nas arenas romanas, construções erguidas para entreter o povo com jogos, com guerreiros que se digladiavam entre si e muitas vezes enfrentavam feras. Por sua vez, o povo (a plateia, a torcida) se distraía e se entretinha com os combates, enquanto os imperadores e nobres governavam distribuindo migalhas de seus camarotes. Eis a fórmula humana: amálgama de arte, entretenimento, diversão, brutalidade, disputa e corrupção. Há ainda dois elementos fundamentais que não podem deixar de ser escalados para compor tal fórmula: política e religião.
Percebem como esse recorte datado de antes de Cristo é bem semelhante ao jovem ludopédio de pouco mais de cem anos? A começar pelas arenas e suas divisões, assim são os estádios – hoje também conhecidos como arenas – com seus espaços mais ou menos privilegiados e ocupados por quem tem mais ou menos prestígio, respectivamente. Dentro de campo, um jogo que encanta e conta histórias que refletem a própria humanidade. Da lealdade à maldade, do fair play à violência, da honestidade à corrupção, tudo acontece aparentemente dentro de campo, mas, ao mesmo tempo em que inspira, também reflete a plateia, reflete a própria vida em sociedade. Poderíamos narrar um sem número de histórias encantadoras e desgraçadas, que envolvem o futebol, para ilustrar como esse jogo feito por pessoas é, na verdade, a materialização delas, de seus anseios e devaneios. Mas isso levaria este texto para a prorrogação e para uma cobrança de pênaltis infinita, pois são histórias que abarrotam arenas e não finalizaríamos nunca essa partida. Então selecionaremos alguns highlights para demonstrar encantos e desgraças do ser humano, metaforizados de forma lúdica ao longo do campeonato da vida.
A partir daqui, chamarei o jogo para mim, é hora de aparecer o talento individual, troco a primeira do plural desse discurso pela primeira do singular e assumo a responsabilidade da derrota, mas dividirei com os leitores torcedores os louros da vitória se ela vier ao apito ponto final.
Começarei ilustrando os ápices dos encantos e das desgraças narrando um episódio ocorrido com o time do meu coração, o Sport Club do Recife. Em 2008, o Sport foi campeão da Copa do Brasil de forma magistral, tendo eliminado gigantes do futebol brasileiro, como Internacional – RS, Palmeiras – SP, Vasco – RJ e sendo campeão em cima do Corinthians – SP. No ano seguinte jogou uma primeira fase de Libertadores da América brilhante, passando a fase de grupos como primeiro colocado, inclusive vencendo o campeão da competição do ano anterior, a LDU, dentro e fora de casa. Parou na fase seguinte, nas oitavas de final, sendo eliminado nos pênaltis pelo Palmeiras. No final do mesmo ano, em 2009, foi rebaixado, como lanterna, da Série A do Campeonato Brasileiro. Jogou a Série B nos dois anos seguintes. Nesse ínterim, 2010-2011, apareceu um pai de santo afirmando que tal crise se instalara no clube por conta de uma dívida não sanada, o Sport teria prometido um búfalo ao babalorixá, ainda em 2008, caso a equipe conquistasse a Copa do Brasil, o que de fato ocorrera. A diretoria do Sport, por via das dúvidas (?), decide então pagar R$ 5.000,00 ao pai de santo para que a “dívida” com os orixás pudesse ser sanada, o babalorixá comprou um boi malhado, por menos da metade do valor recebido, depois de ter consultado os orixás e, segundo tal consulta, eles terem permitido aquele boi ao invés de um búfalo. Hilário, não? Interesses espirituais e financeiros numa mesma oferenda. Fato é que o Sport retornou à elite do futebol brasileiro em 2012. Misticismos, crenças, religiões e superstições fazem parte indissociável do futebol. “No creo em brujas, pero que  las hay, las hay”.
O futebol é feito de crenças. Crenças são produzidas por pessoas. 
Os próximos episódios narram uma desgraça inerente ao ser humano, que é transmitida às suas instituições: a corrupção. Ela aparece no futebol de forma semelhante àqueles imperadores e nobres romanos das arenas, mas sob outra alcunha, eles são conhecidos como cartolas. Esses mancham o futebol com politicagem, subornos, compra de integridade, associações escusas e todo tipo de irregularidade que se possa imaginar. Vamos aos fatos. O Clube de Regatas Flamengo foi o campeão brasileiro de 1980 em cima do Clube Atlético Mineiro. Eram dois timaços, não há como negar. Porém, o jogo foi marcado por um nome: José. José de Assis Aragão, o árbitro da partida, expulsou na metade do segundo tempo o craque do Atlético, Reinaldo, por ter reclamado de um impedimento mal marcado e retardado a cobrança de tal impedimento, Reinaldo já havia marcado dois gols na partida, que se encontrava com um placar de 2x2, favorável aos atleticanos, que poderiam se consagrar campeões, diante de mais de 150.000 torcedores rubro-negros em pleno Maracanã, com aquele empate. Resumo da ópera: com um jogador a mais, o Flamengo fez o terceiro gol e levou a taça daquele ano. Esse ainda não é o episódio mais emblemático que pretendo usar para ilustrar a corrupção no futebol, mas tem o mesmo confronto: CRF x CAM. O ano foi o subsequente, 1981, agora pela Taça Libertadores da América, torneio que seria vencido pelo Flamengo naquele ano. Entretanto, antes de se sagrar campeão da América, o clube carioca tinha novamente o rival mineiro, o mesmo sobre o qual havia sido campeão nacional no ano anterior, com a polêmica expulsão de Reinaldo, como foi narrada acima, e de mais dois jogadores atleticanos no final daquela partida com o Flamengo já em vantagem no placar. É de expulsão que estamos falando? Pois bem, a reedição do jogo do ano anterior entre cariocas e mineiros, agora por um campeonato continental, também foi marcado por um nome, mais um cidadão José. Dessa vez o árbitro era José Roberto Wright, que aos 37 minutos de jogo já havia expulsado cinco jogadores do Atlético Mineiro, isso mesmo, cinco!, a sequência de cartões vermelhos teve início novamente com Reinaldo, como coincidentemente ocorrera um ano antes; com apenas seis jogadores em campo do lado mineiro, Wright encerrou a partida e decretou a vitória aos cariocas, que avançaram aquela etapa e foram campeões do torneio. Dizem por aí que Wright é flamenguista. E agora, José? E eu nem adentrarei na seara de 1987, pois esse é um caso encerrado.
O futebol é feito de corrupções. Corrupções são produzidas por pessoas.
Agora eu gostaria de trazer um episódio ocorrido na Copa do Mundo de 1986. Copa vencida pela Argentina, com uma belíssima atuação do polêmico Diego Armando Maradona, e, em se tratando de Don Diego, a polêmica é praxe. Porém essa polêmica é justificável dentro dos trâmites políticos, futebolísticos e, naturalmente, humanos. Nas quartas de final daquela Copa, a Seleção da Argentina enfrentou a Seleção da Inglaterra num jogo histórico. 2x1 para a Argentina, que avançou de fase com um golaço de Maradona, que parte do meio de campo driblando todos os adversários à sua frente, e com um gol de mão, que foi validado, marcado também por Maradona, aliás, segundo o próprio Diego, marcado por Deus, é o famoso gol “la mano de Dios”. Por que essa irregularidade, um gol de mão, seria justificável naquela situação específica? Basta retornar a 1982, quatro anos antes daquela partida, e resgatar um episódio político, entre Reino Unido e Argentina, que envolvia o controle de um arquipélago conhecido pelos argentinos como Ilhas Malvinas e pelos ingleses como Falklands, o conflito teve como vencedores os ingleses, o que acarretou um mal estar diplomático entre as duas nações até hoje. Apenas quatro anos depois de um conflito bélico de interesses políticos, um conflito futebolístico de caráter mundial traria de volta toda aquela tensão entre os dois países. Tratava-se de soberania, demarcação territorial, orgulho. E o campo de futebol é uma trincheira para todos esses requisitos. Maradona após a partida simplesmente decretou e dedicou aquela vitória às Malvinas. Portanto, gol de mão justo como a mão que empunha armas para reivindicar soberania. Mesmo que seja essa a mão de Deus.
O futebol é feito de guerras. Guerras são produzidas por pessoas.
Por fim, já nos acréscimos textuais, faço questão de colocar em súmula o recente trágico episódio ocorrido com a Associação Chapecoense de Futebol. Um acidente aéreo que dizimou quase uma delegação inteira que se encaminhava para a Colômbia para disputar a final de uma competição continental, a Copa Sul-Americana. Por ganância do piloto, também dono da companhia aérea, numa tentativa de conter gastos visando apenas ao próprio lucro, a aeronave foi abastecida com o mínimo de combustível para o trajeto, o piloto não contava com a possibilidade de precisar de mais combustível e tal possibilidade se concretizou quando a aeronave não obteve permissão para pousar e precisou sobrevoar por mais tempo. Sem combustível, queda. Tragédia. Tal situação irmanou brasileiros e colombianos de uma forma jamais vista. O Club Atlético Nacional S.A., ou simplesmente Nacional de Medellín, abriu mão do título e da premiação da competição num gesto de solidariedade. O mundo se solidarizou. Tragédias podem ser provocadas por pessoas e suas ganâncias (e geralmente são), como guerras, conflitos ideológicos, desacordos políticos, incompatibilidades religiosas, mas a solidariedade humana se sobrepõe ao estado de beligerância e de interesses individuais em situações como essa, pois na tragédia, independente de país, etnia, cultura ou das cores das camisas e das bandeiras, somos todos pessoas. O futebol é confronto, é disputa, envolve interesses particulares e coletivos, mas, sobretudo, é superação. A humanidade é assim. Contraditória. Competitiva. Cria regras e as quebra. É cheia de virtudes e defeitos concomitantes. Não vive para perder, mas se perde em viver.
O futebol é feito de pessoas, pois ele é feito por pessoas.   

quarta-feira, 24 de maio de 2017

POESIA INÉDITA

a poesia é inédita
mas só a é para com o curso
que se repete do ponto a ao b
editando o bê a bá
do poeta que tenta ir do b ao a

na tentativa de nadar contra a corrente
criam-se correntes
movimentos estáticos
estanques, didáticos...
que exalam o frescor da mimesis

versos e estrofes
dão lugar a parágrafos e incisos
a poesia é dos advogados, o fingimento é dos poetas
que se debruçam sobre causas ganhas
a louvor do que não se espera

o que esperar do que já se prevê?
prevenir-se de moldes
pré-moldar novas modas
revolução é dar voltas
de outrora à hora de quem lê

Poema escrito em 05/05/2015, só agora publicado

terça-feira, 29 de novembro de 2016

ESCOLHIDO PARA SERVIR ou POEMA DE NATAL

O escolhido foi gestado
entretanto não nasceu
foi escolhido para servir
mas não se desenvolveu

Não conheço linhas tortas
nem sei escrever certo
do amor seria servo
e estaria hoje bem perto

A certeza de ser o escolhido –
Neo, the one – é minha
mas nada mudaria se não o fosse
e fosse simplesmente La niña

Fenômeno que resfria a superfície
mas aquece a profundeza
conheço as consequências
e para o cárdio são uma beleza

De natal e de vitória
“o espetáculo da vida”
abatida, que agora chora
mas um dia será lida

Vida que segue interrompida
casa nova que vem, não vem...
É possível ver uma saída
coragem, porém...

Entre rimas e vidas pobres
um gado adulto a pastar
ruminando os podres
não está o escolhido, star

Ao olhar para esta
teus caramelos brilharão
darão à luz uma nova era
Era nova uma luz clarão

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Repenet

Quem acompanha o rap nacional sabe que tá rolando uma chacoalhada no gênero com as tais diss. Cá não estou me opondo nem apoiando. Acho uma discussão importante a se travar. Há pontos positivos e negativos. As batalhas são boas para elevar o nível, assim como acontecem nos repentes e cordéis que há muito já as faziam, mas no rap nem sempre são amistosas como no repente, que sempre são. Eu mesmo posso dizer que já fiz uma diss, foi no meu disco Pau-Brasil, em 2009, última faixa: U.N.I.D.A.D.E. “Disseram que o meu som não era rap, com segregação o movimento não cresce”; naquela ocasião fui acusado (?) de não contribuir para o rap, de ser playboy, de não falar a língua da periferia etc. Porra! E é uma religião, é? Eu falo a ‘Língua geral’. Tudo bem pra você, bispo? Aproveitando esse ensejo amistoso (rsrs), eu acredito que o papo se encerra aqui. Uma diss para si mesmo. Tey! Confesso que nunca achei Rashid o mais foda das rimas, mas agora, para mim – que sou este não contribuinte playboy não falante da língua da periferia (entretanto falante da linguagem dela) –, ele se apresenta como um muito foda da lírica. Assim como um parceiro meu me disse a respeito da minha diss lá em 2009, digo hoje que Rashid deu um soco na cara com uma luva de plumas, ou seja, com elegância. E a literatura, mesmo que agressiva, deve sempre estar apercebida de elegância. O detalhe nas batalhas, este que é sempre o mais importante, é usar a favor o que foi despejado contra. A maior parte dos versos de Rashid nesta diss é de comentários postados nas redes sociais. Ah, a internet! Ah, o repenet! Ops, o repente.

Ouçam o som e vejam o lyric video, tudo fará sentido: