quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O FUTEBOL É FEITO DE PESSOAS

O futebol é feito por pessoas, é, portanto, feito de pessoas. Tudo aquilo que é feito por seres humanos tem, por conseguinte, o próprio ser humano naquilo. Parece que o meio de campo embolou, não é mesmo? Então vamos clarear essa jogada e pôr a bola para frente. Pensemos num projeto arquitetônico, por exemplo, ele é idealizado e executado por pessoas, e nele está o próprio ser humano, representando uma época e seus valores, atravessando o tempo e contando histórias da humanidade, e também da desumanidade, afinal, muitas construções foram erguidas para enclausurar e arrancar a humanidade das pessoas. Então pensemos nas arenas romanas, construções erguidas para entreter o povo com jogos, com guerreiros que se digladiavam entre si e muitas vezes enfrentavam feras. Por sua vez, o povo (a plateia, a torcida) se distraía e se entretinha com os combates, enquanto os imperadores e nobres governavam distribuindo migalhas de seus camarotes. Eis a fórmula humana: amálgama de arte, entretenimento, diversão, brutalidade, disputa e corrupção. Há ainda dois elementos fundamentais que não podem deixar de ser escalados para compor tal fórmula: política e religião.
Percebem como esse recorte datado de antes de Cristo é bem semelhante ao jovem ludopédio de pouco mais de cem anos? A começar pelas arenas e suas divisões, assim são os estádios – hoje também conhecidos como arenas – com seus espaços mais ou menos privilegiados e ocupados por quem tem mais ou menos prestígio, respectivamente. Dentro de campo, um jogo que encanta e conta histórias que refletem a própria humanidade. Da lealdade à maldade, do fair play à violência, da honestidade à corrupção, tudo acontece aparentemente dentro de campo, mas, ao mesmo tempo em que inspira, também reflete a plateia, reflete a própria vida em sociedade. Poderíamos narrar um sem número de histórias encantadoras e desgraçadas, que envolvem o futebol, para ilustrar como esse jogo feito por pessoas é, na verdade, a materialização delas, de seus anseios e devaneios. Mas isso levaria este texto para a prorrogação e para uma cobrança de pênaltis infinita, pois são histórias que abarrotam arenas e não finalizaríamos nunca essa partida. Então selecionaremos alguns highlights para demonstrar encantos e desgraças do ser humano, metaforizados de forma lúdica ao longo do campeonato da vida.
A partir daqui, chamarei o jogo para mim, é hora de aparecer o talento individual, troco a primeira do plural desse discurso pela primeira do singular e assumo a responsabilidade da derrota, mas dividirei com os leitores torcedores os louros da vitória se ela vier ao apito ponto final.
Começarei ilustrando os ápices dos encantos e das desgraças narrando um episódio ocorrido com o time do meu coração, o Sport Club do Recife. Em 2008, o Sport foi campeão da Copa do Brasil de forma magistral, tendo eliminado gigantes do futebol brasileiro, como Internacional – RS, Palmeiras – SP, Vasco – RJ e sendo campeão em cima do Corinthians – SP. No ano seguinte jogou uma primeira fase de Libertadores da América brilhante, passando a fase de grupos como primeiro colocado, inclusive vencendo o campeão da competição do ano anterior, a LDU, dentro e fora de casa. Parou na fase seguinte, nas oitavas de final, sendo eliminado nos pênaltis pelo Palmeiras. No final do mesmo ano, em 2009, foi rebaixado, como lanterna, da Série A do Campeonato Brasileiro. Jogou a Série B nos dois anos seguintes. Nesse ínterim, 2010-2011, apareceu um pai de santo afirmando que tal crise se instalara no clube por conta de uma dívida não sanada, o Sport teria prometido um búfalo ao babalorixá, ainda em 2008, caso a equipe conquistasse a Copa do Brasil, o que de fato ocorrera. A diretoria do Sport, por via das dúvidas (?), decide então pagar R$ 5.000,00 ao pai de santo para que a “dívida” com os orixás pudesse ser sanada, o babalorixá comprou um boi malhado, por menos da metade do valor recebido, depois de ter consultado os orixás e, segundo tal consulta, eles terem permitido aquele boi ao invés de um búfalo. Hilário, não? Interesses espirituais e financeiros numa mesma oferenda. Fato é que o Sport retornou à elite do futebol brasileiro em 2012. Misticismos, crenças, religiões e superstições fazem parte indissociável do futebol. “No creo em brujas, pero que  las hay, las hay”.
O futebol é feito de crenças. Crenças são produzidas por pessoas. 
Os próximos episódios narram uma desgraça inerente ao ser humano, que é transmitida às suas instituições: a corrupção. Ela aparece no futebol de forma semelhante àqueles imperadores e nobres romanos das arenas, mas sob outra alcunha, eles são conhecidos como cartolas. Esses mancham o futebol com politicagem, subornos, compra de integridade, associações escusas e todo tipo de irregularidade que se possa imaginar. Vamos aos fatos. O Clube de Regatas Flamengo foi o campeão brasileiro de 1980 em cima do Clube Atlético Mineiro. Eram dois timaços, não há como negar. Porém, o jogo foi marcado por um nome: José. José de Assis Aragão, o árbitro da partida, expulsou na metade do segundo tempo o craque do Atlético, Reinaldo, por ter reclamado de um impedimento mal marcado e retardado a cobrança de tal impedimento, Reinaldo já havia marcado dois gols na partida, que se encontrava com um placar de 2x2, favorável aos atleticanos, que poderiam se consagrar campeões, diante de mais de 150.000 torcedores rubro-negros em pleno Maracanã, com aquele empate. Resumo da ópera: com um jogador a mais, o Flamengo fez o terceiro gol e levou a taça daquele ano. Esse ainda não é o episódio mais emblemático que pretendo usar para ilustrar a corrupção no futebol, mas tem o mesmo confronto: CRF x CAM. O ano foi o subsequente, 1981, agora pela Taça Libertadores da América, torneio que seria vencido pelo Flamengo naquele ano. Entretanto, antes de se sagrar campeão da América, o clube carioca tinha novamente o rival mineiro, o mesmo sobre o qual havia sido campeão nacional no ano anterior, com a polêmica expulsão de Reinaldo, como foi narrada acima, e de mais dois jogadores atleticanos no final daquela partida com o Flamengo já em vantagem no placar. É de expulsão que estamos falando? Pois bem, a reedição do jogo do ano anterior entre cariocas e mineiros, agora por um campeonato continental, também foi marcado por um nome, mais um cidadão José. Dessa vez o árbitro era José Roberto Wright, que aos 37 minutos de jogo já havia expulsado cinco jogadores do Atlético Mineiro, isso mesmo, cinco!, a sequência de cartões vermelhos teve início novamente com Reinaldo, como coincidentemente ocorrera um ano antes; com apenas seis jogadores em campo do lado mineiro, Wright encerrou a partida e decretou a vitória aos cariocas, que avançaram aquela etapa e foram campeões do torneio. Dizem por aí que Wright é flamenguista. E agora, José? E eu nem adentrarei na seara de 1987, pois esse é um caso encerrado.
O futebol é feito de corrupções. Corrupções são produzidas por pessoas.
Agora eu gostaria de trazer um episódio ocorrido na Copa do Mundo de 1986. Copa vencida pela Argentina, com uma belíssima atuação do polêmico Diego Armando Maradona, e, em se tratando de Don Diego, a polêmica é praxe. Porém essa polêmica é justificável dentro dos trâmites políticos, futebolísticos e, naturalmente, humanos. Nas quartas de final daquela Copa, a Seleção da Argentina enfrentou a Seleção da Inglaterra num jogo histórico. 2x1 para a Argentina, que avançou de fase com um golaço de Maradona, que parte do meio de campo driblando todos os adversários à sua frente, e com um gol de mão, que foi validado, marcado também por Maradona, aliás, segundo o próprio Diego, marcado por Deus, é o famoso gol “la mano de Dios”. Por que essa irregularidade, um gol de mão, seria justificável naquela situação específica? Basta retornar a 1982, quatro anos antes daquela partida, e resgatar um episódio político, entre Reino Unido e Argentina, que envolvia o controle de um arquipélago conhecido pelos argentinos como Ilhas Malvinas e pelos ingleses como Falklands, o conflito teve como vencedores os ingleses, o que acarretou um mal estar diplomático entre as duas nações até hoje. Apenas quatro anos depois de um conflito bélico de interesses políticos, um conflito futebolístico de caráter mundial traria de volta toda aquela tensão entre os dois países. Tratava-se de soberania, demarcação territorial, orgulho. E o campo de futebol é uma trincheira para todos esses requisitos. Maradona após a partida simplesmente decretou e dedicou aquela vitória às Malvinas. Portanto, gol de mão justo como a mão que empunha armas para reivindicar soberania. Mesmo que seja essa a mão de Deus.
O futebol é feito de guerras. Guerras são produzidas por pessoas.
Por fim, já nos acréscimos textuais, faço questão de colocar em súmula o recente trágico episódio ocorrido com a Associação Chapecoense de Futebol. Um acidente aéreo que dizimou quase uma delegação inteira que se encaminhava para a Colômbia para disputar a final de uma competição continental, a Copa Sul-Americana. Por ganância do piloto, também dono da companhia aérea, numa tentativa de conter gastos visando apenas ao próprio lucro, a aeronave foi abastecida com o mínimo de combustível para o trajeto, o piloto não contava com a possibilidade de precisar de mais combustível e tal possibilidade se concretizou quando a aeronave não obteve permissão para pousar e precisou sobrevoar por mais tempo. Sem combustível, queda. Tragédia. Tal situação irmanou brasileiros e colombianos de uma forma jamais vista. O Club Atlético Nacional S.A., ou simplesmente Nacional de Medellín, abriu mão do título e da premiação da competição num gesto de solidariedade. O mundo se solidarizou. Tragédias podem ser provocadas por pessoas e suas ganâncias (e geralmente são), como guerras, conflitos ideológicos, desacordos políticos, incompatibilidades religiosas, mas a solidariedade humana se sobrepõe ao estado de beligerância e de interesses individuais em situações como essa, pois na tragédia, independente de país, etnia, cultura ou das cores das camisas e das bandeiras, somos todos pessoas. O futebol é confronto, é disputa, envolve interesses particulares e coletivos, mas, sobretudo, é superação. A humanidade é assim. Contraditória. Competitiva. Cria regras e as quebra. É cheia de virtudes e defeitos concomitantes. Não vive para perder, mas se perde em viver.
O futebol é feito de pessoas, pois ele é feito por pessoas.   

quarta-feira, 24 de maio de 2017

POESIA INÉDITA

a poesia é inédita
mas só a é para com o curso
que se repete do ponto a ao b
editando o bê a bá
do poeta que tenta ir do b ao a

na tentativa de nadar contra a corrente
criam-se correntes
movimentos estáticos
estanques, didáticos...
que exalam o frescor da mimesis

versos e estrofes
dão lugar a parágrafos e incisos
a poesia é dos advogados, o fingimento é dos poetas
que se debruçam sobre causas ganhas
a louvor do que não se espera

o que esperar do que já se prevê?
prevenir-se de moldes
pré-moldar novas modas
revolução é dar voltas
de outrora à hora de quem lê

Poema escrito em 05/05/2015, só agora publicado

terça-feira, 29 de novembro de 2016

ESCOLHIDO PARA SERVIR ou POEMA DE NATAL

O escolhido foi gestado
entretanto não nasceu
foi escolhido para servir
mas não se desenvolveu

Não conheço linhas tortas
nem sei escrever certo
do amor seria servo
e estaria hoje bem perto

A certeza de ser o escolhido –
Neo, the one – é minha
mas nada mudaria se não o fosse
e fosse simplesmente La niña

Fenômeno que resfria a superfície
mas aquece a profundeza
conheço as consequências
e para o cárdio são uma beleza

De natal e de vitória
“o espetáculo da vida”
abatida, que agora chora
mas um dia será lida

Vida que segue interrompida
casa nova que vem, não vem...
É possível ver uma saída
coragem, porém...

Entre rimas e vidas pobres
um gado adulto a pastar
ruminando os podres
não está o escolhido, star

Ao olhar para esta
teus caramelos brilharão
darão à luz uma nova era
Era nova uma luz clarão

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Repenet

Quem acompanha o rap nacional sabe que tá rolando uma chacoalhada no gênero com as tais diss. Cá não estou me opondo nem apoiando. Acho uma discussão importante a se travar. Há pontos positivos e negativos. As batalhas são boas para elevar o nível, assim como acontecem nos repentes e cordéis que há muito já as faziam, mas no rap nem sempre são amistosas como no repente, que sempre são. Eu mesmo posso dizer que já fiz uma diss, foi no meu disco Pau-Brasil, em 2009, última faixa: U.N.I.D.A.D.E. “Disseram que o meu som não era rap, com segregação o movimento não cresce”; naquela ocasião fui acusado (?) de não contribuir para o rap, de ser playboy, de não falar a língua da periferia etc. Porra! E é uma religião, é? Eu falo a ‘Língua geral’. Tudo bem pra você, bispo? Aproveitando esse ensejo amistoso (rsrs), eu acredito que o papo se encerra aqui. Uma diss para si mesmo. Tey! Confesso que nunca achei Rashid o mais foda das rimas, mas agora, para mim – que sou este não contribuinte playboy não falante da língua da periferia (entretanto falante da linguagem dela) –, ele se apresenta como um muito foda da lírica. Assim como um parceiro meu me disse a respeito da minha diss lá em 2009, digo hoje que Rashid deu um soco na cara com uma luva de plumas, ou seja, com elegância. E a literatura, mesmo que agressiva, deve sempre estar apercebida de elegância. O detalhe nas batalhas, este que é sempre o mais importante, é usar a favor o que foi despejado contra. A maior parte dos versos de Rashid nesta diss é de comentários postados nas redes sociais. Ah, a internet! Ah, o repenet! Ops, o repente.

Ouçam o som e vejam o lyric video, tudo fará sentido:

domingo, 20 de novembro de 2016

Coisas que eu já vi e ninguém fez. Aliás, que eu já fiz e ninguém viu. #1

Quando eu comecei a fazer música, classificada como rap, todo mundo dizia – meu pai inclusive – isso aí não vai dar certo, simplesmente porque era rap. Depois que Ney Matogrosso gravou uma música minha, meu pai voltou atrás sobre “não vai dar certo”; a rapaziada do rap continuou, até hoje continua, com o tal “não vai dar certo”, por causa do meu vocabulário e referências literárias. Ainda ouço dizerem que meu som não atinge a periferia e sou chamado de playboy por conta disso, por conta da minha linguagem. Aí hoje temos Emicida, um dos maiores nomes da música rap, que diz assim numa entrevista (quando perguntado sobre as influências dele para começar a fazer o que ele faz hoje, que é rap, né?):

“De repente esses caras começou a pôr o nome de tanta gente nos rap, tanta referência, que eu falei: mano, num tô entendendo nada e eu fiquei curioso, mas num me afastou do baguio, me fez me aproximar do barato. Então eu acho isso, por isso que eu acho que minha música é simples, mas não é óbvia, porque eu gosto que a música comunique, mas eu gosto que a música comunique e tenha um ponto incógnita ali que a pessoa vai ter que levantar a bunda dela e pesquisar sobre o que eu tô falando também.”

Espero que os amigos, a quem eu falei "mermingual", se lembrem de que eu disse isso quando o meu rap foi questionado por ser sofisticado. E Gabriel, o pensador? É ele o retrato de um playboy? Isso é assunto para uma próxima crônica.

Link para a entrevista em que Emicida diz o que transcrevi acima:

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

DIREITO DE RESPOSTA

não tenho tudo que amo, nem amo tudo que tenho
tem coisa que eu carrego como um trabalho de engenho
e é por isso que venho
contra discurso tacanho
de um ódio tamanho
com meu revide ferrenho
sinto-me obrigado em exercer tal função
se perguntado se gosto, logo respondo que não
porém não abro mão, mando um direto no queixo
lanço mão do direito, dou a resposta e desfecho

DE VERSÃO A COVER

Este texto é autoral e exprime exclusivamente em sua manifestação os ideais do redator. Eu assino o texto e qualquer boletim de ocorrência que seja necessário.

Há muito discuto a respeito e defendo a produção musical autoral. Essa é uma bandeira a qual defendo veementemente. Colocarei aqui alguns pontos de vista sobre esse tema.
É necessário, antes de qualquer coisa, discutir as situações que permeiam esse universo. Vamos lá. Existem três situações principais a problematizar: quais as diferenças e semelhanças entre versão, cover e tributo?  

Como matéria-prima, alguém deve compor algo. Pronto. Eis o produto: uma música. Alguém compõe a letra, alguém compõe a música, às vezes a(s) mesma(s) pessoa(s) desempenha(m) as duas atividades. Daí alguém vai interpretá-la, e pode ser que as mesmas pessoas que desempenharam as duas primeiras atividades executem essa terceira. Assim, autores/compositores e intérpretes se envolvem diretamente nos processos de criação e execução da música.

O que pode acontecer também é alguém que não compõe, apenas interpreta. Há vários casos, muito bem sucedidos, de intérpretes. Vou utilizar o exemplo de Ney Matogrosso, pois é um exemplo bem próximo. Já tive uma música gravada por ele (Tupi fusão). A música em questão tem quatro compositores. A letra é minha e a música é de três parceiros de banda. Ney Matogrosso interpretou-a fazendo uso de arranjos próprios de sua banda, porém mantendo as harmonias e melodias da música original, por isso a música – interpretada por Ney – não é um cover, mas uma versão que ficou bem a cara dele. O cover é quando se executa igual (geralmente sem o conhecimento e/ou autorização dos compositores).

Em se tratando de executar igual, o que mais acontece no circuito de entretenimento noturno é a execução de covers (geralmente sem o conhecimento e/ou autorização dos compositores). Bandas de meninos novinhos, em sua maioria, que fazem eventos tocando covers, por exemplo, de Pearl Jam, Nirvana, Blink 182 etc. É natural que se comece pelos covers, pelas bandas que são influência no início da trajetória, para depois andar com as próprias canções. Acontece naturalmente. Entretanto, acontece também de os meninos novinhos se tornarem marmanjos ainda executando clássicos, músicas que vendem, vendem porque já venderam, porque são clássicas. Esse tipo de banda, a meu ver e ouvir, é banda de baile. De casamento. De formatura.

Outra coisa é, em meio à apresentação autoral, executar duas ou três músicas clássicas que influenciam a banda, como uma espécie de homenagem. É diferente. Bem diferente. Há de se pensar também, em se tratando de homenagens, no que vêm a ser os tributos. Tributo é quando se tem uma banda que se dedica a executar, o mais próximo possível, as canções, os trajes e trejeitos, até o timbre da voz de um(a) determinado(a) cantor(a) ou banda específica. Eu conheço uma banda tributo ao Raul Seixas muito boa. Chama-se Cachorro Urubu. Há de se considerar também como tributo quando um artista x deseja prestar homenagem a um artista y, como fez, por exemplo, Zeca Baleiro ao homenagear Zé Ramalho com uma turnê em que ele executava músicas do homenageado. Entretanto sem tentar imitá-lo, nos trajes e trejeitos, e executando as canções em versões, leituras, interpretações suas e de sua banda, mas, como já foi falado aqui, mantendo as harmonias e melodias originais. Portanto, é um tributo-homenagem feito com versões das músicas originais e aval do autor.

Há também a paródia. Essa é uma técnica muito interessante. Eu adoro! Mas neste texto não me aprofundarei nessa vertente, pois ela é um processo de composição também, mesmo que parta de algo já existente. Em outro momento talvez eu aprofunde esse e outro tema que também merece atenção, que é o caso das versões que são feitas de uma língua para outra. The Fevers, por exemplo, foi uma banda mestra nesse tipo de composição. Sim, composição. A música (harmonias e melodias) se mantém como a original, mas a letra é uma nova, não é uma tradução, o que acaba conferindo à canção uma autoria em sua versão. Abre-se margem a contestação, é claro, mas em outro momento pensarei em esmiuçar isso.  

Pois bem, de forma bastante formal (aqui neste texto) tentei tratar desses temas que me afetam. E de forma bastante irreverente e irônica tratei desses temas em canção. A música se chama Coveiro, uma brincadeira com quem faz cover. Se faz cover é coveiro, pois além de ser um sufixo – eiro – destinado a atribuir características (rockeiro, reggaeiro, funkeiro etc.), aqui ele atribui uma característica àqueles que reproduzem características já existentes: a função de enterrar o autoral.