domingo, 10 de janeiro de 2016

SURURU BOM

Henrique, Ney e eu logo após a passagem de som do show que aconteceria...

O final de 2015 e o início de 2016 se apresentaram com uma enxurrada de notícias boas. Enxurrada, o trocadilho não poderia ser mais adequado para o que vem mais à frente neste texto-relato-desabafo.

Este que vos escreve foi agraciado com dois prêmios no final do ano passado, o que possibilitará a realização de duas obras neste ano corrente. Disco novo e um videoclipe de uma música que estará nesse disco. Detalhe: a música que terá um videoclipe é com Ney Matogrosso, e contará também com ele atuando no clipe.

O festival Maceió Verão 2016, festival que vem acontecendo nesta atual gestão municipal todo mês de janeiro, foi anunciado com Ney Matogrosso como atração principal para a abertura do evento. Ótimo! Além de um excelente espetáculo, o disco e o show Atento aos sinais, que vêm circulando pelo mundo desde 2013, conta com Tupi fusão. Vitor Pirralho sendo interpretado por Ney. Que beleza! E isso aconteceria, em praça pública pela primeira vez, na cidade natal deste compositor. Aconteceria...

Eu e Henrique Oliveira, que dirigirá o nosso videoclipe, aproveitamos a vinda de Ney para o festival e programamos uma reunião para apresentar-lhe o projeto, isso um dia antes da abertura do festival, que foi o dia em que ele chegou à cidade. Tudo certo! Fizemos a reunião, ele se envolveu com o projeto, captou nossas ideias e acrescentou mais, como é característico desse artista, que sempre foi ativo e ativista no que faz. Saímos para jantar e nos divertimos bastante com as histórias que nos foram contadas. Ney, “o Brasil necesita un hombre como usted” (essa é uma piada interna com uma das histórias com a qual ele nos privilegiou, morram de curiosidade). Mas é a mais pura verdade. O Brasil precisa de pessoas como Ney. Verdadeiras.

No dia seguinte, por volta do meio dia, fomos à passagem de som, que estava atrasada, mas já foi um show (vide vídeo), e mais uma vez nos confraternizamos e ficamos empolgados com o espetáculo que aconteceria à noite. Aconteceria...   
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Da passagem fomos almoçar. Ney dessa vez não nos acompanhou. Eu e meu parceiro Henrique Oliveira levamos a banda para almoçar à beira da lagoa Mundaú, na Massagueira. Demos o golpe fatal nos músicos com a beleza e a culinária locais. Estava nublado, mas eles se deleitaram mesmo assim. Sacha Amback, diretor musical do espetáculo Atento aos sinais, já conhecia a região, pois eu e o meu tecladista, Dinho Zampier, o levamos lá numa outra ocasião. Os demais – Everson e Aquiles Moraes, Dunga, Da Lua, Guilherme Kastrup e André Valle – piraram e encheram os olhos, e a barriga também. Massa(gueira)!

Depois disso deixamos os músicos no hotel, para que eles se aprontassem para o show que aconteceria mais tarde. Aconteceria... Chega! Vamos ao que aconteceu para que o show não acontecesse. Para tanto, farei um breve retrospecto sobre os eventos que vêm acontecendo e a equipe que monta a estrutura de palco em Maceió (não a conheço, mas deve ser a mesma para todos os eventos). No São João do ano passado, um show foi cancelado porque o palco desabou, estava chovendo; dezembro passado, no aniversário da cidade, uma estrutura metálica caiu sobre a cabeça de um funcionário que trabalhava sem nenhum EPI na montagem do palco (vide vídeo); e agora, no Maceió Verão 2016, a estrutura de palco desabou também, no horário do evento começou a chover. A chuva foi torrencial, de fato uma enxurrada, por isso o trocadilho anunciado no início do texto. O pior só não aconteceu, o palco ter caído sobre os músicos e/ou sobre o público, porque a estrutura de iluminação, que pertence à equipe de Ney Matogrosso, e que por ela foi montada, segurou a estrutura que cedeu do palco, que foi montado pela equipe local, provavelmente a mesma que vem fazendo todos os eventos da prefeitura.  
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Resultado: show cancelado! É, o show que aconteceria não aconteceu. Será que o fator principal foi a forte chuva? É inquestionável o poder da natureza, mas a tragédia já era anunciada pelo histórico dessas montagens de palco mal feitas, que são sempre montados, sem exceção, no dia do evento. É um absurdo ter uma passagem de som enquanto as estruturas de palco ainda estão sendo montadas. Como se vistoria um palco antes de um show ser realizado se ele só termina de ser montado momentos antes das apresentações? Eu, particularmente, acho bem interessante a política cultural desta gestão municipal, não me lembro de outra que tenha valorizado assim esse setor, a realização de eventos, o cuidado com a história da cultura local, a realização de um edital de incentivo às artes – a propósito, foi através dele que ganhei os dois prêmios mencionados no início do texto -, mas há de se repensar essa “parceria” com quem fornece e monta as estruturas desses eventos, rever essas contratações, tornar claro o que acontece nas licitações que levam ao perigoso clichê “o barato sai caro”. É necessário sair dessa lama, a transparência urge, o Brasil precisa de pessoas verdadeiras como Ney, que, assim que chegou ao hotel, me ligou num misto de preocupação e indignação: “As pessoas precisam saber a verdade, o que aconteceu. Poderia ter sido uma tragédia!”. Haviam anunciado que o show seria adiado para o dia seguinte, mas quase instantaneamente, através daquele telefonema, eu, ainda no local do evento, entendi que não haveria um adiamento, mas um cancelamento.

Lembro que uma frase dita por Dunga, baixista da banda de Ney, no almoço na Massagueira, quando explicávamos que o sururu bom é aquele que cresce profundamente imerso na lama, vem bem a calhar nestes momentos. Ele concluiu: “Então sururu bom é o que chafurda”. Pois bem, levando em consideração que alguns dicionários definem a palavra ‘sururu’ como briga, desordem, confusão, é bom que o sururu que chafurda seja apenas o molusco, pois, se os gestores continuarem a chafurdar em suas licitações e parcerias, o sururu vai crescer, mas não será o sururu da lagoa Mundaú, e sim o sururu dos dicionários.