segunda-feira, 3 de outubro de 2016

DE VERSÃO A COVER

Este texto é autoral e exprime exclusivamente em sua manifestação os ideais do redator. Eu assino o texto e qualquer boletim de ocorrência que seja necessário.

Há muito discuto a respeito e defendo a produção musical autoral. Essa é uma bandeira a qual defendo veementemente. Colocarei aqui alguns pontos de vista sobre esse tema.
É necessário, antes de qualquer coisa, discutir as situações que permeiam esse universo. Vamos lá. Existem três situações principais a problematizar: quais as diferenças e semelhanças entre versão, cover e tributo?  

Como matéria-prima, alguém deve compor algo. Pronto. Eis o produto: uma música. Alguém compõe a letra, alguém compõe a música, às vezes a(s) mesma(s) pessoa(s) desempenha(m) as duas atividades. Daí alguém vai interpretá-la, e pode ser que as mesmas pessoas que desempenharam as duas primeiras atividades executem essa terceira. Assim, autores/compositores e intérpretes se envolvem diretamente nos processos de criação e execução da música.

O que pode acontecer também é alguém que não compõe, apenas interpreta. Há vários casos, muito bem sucedidos, de intérpretes. Vou utilizar o exemplo de Ney Matogrosso, pois é um exemplo bem próximo. Já tive uma música gravada por ele (Tupi fusão). A música em questão tem quatro compositores. A letra é minha e a música é de três parceiros de banda. Ney Matogrosso interpretou-a fazendo uso de arranjos próprios de sua banda, porém mantendo as harmonias e melodias da música original, por isso a música – interpretada por Ney – não é um cover, mas uma versão que ficou bem a cara dele. O cover é quando se executa igual (geralmente sem o conhecimento e/ou autorização dos compositores).

Em se tratando de executar igual, o que mais acontece no circuito de entretenimento noturno é a execução de covers (geralmente sem o conhecimento e/ou autorização dos compositores). Bandas de meninos novinhos, em sua maioria, que fazem eventos tocando covers, por exemplo, de Pearl Jam, Nirvana, Blink 182 etc. É natural que se comece pelos covers, pelas bandas que são influência no início da trajetória, para depois andar com as próprias canções. Acontece naturalmente. Entretanto, acontece também de os meninos novinhos se tornarem marmanjos ainda executando clássicos, músicas que vendem, vendem porque já venderam, porque são clássicas. Esse tipo de banda, a meu ver e ouvir, é banda de baile. De casamento. De formatura.

Outra coisa é, em meio à apresentação autoral, executar duas ou três músicas clássicas que influenciam a banda, como uma espécie de homenagem. É diferente. Bem diferente. Há de se pensar também, em se tratando de homenagens, no que vêm a ser os tributos. Tributo é quando se tem uma banda que se dedica a executar, o mais próximo possível, as canções, os trajes e trejeitos, até o timbre da voz de um(a) determinado(a) cantor(a) ou banda específica. Eu conheço uma banda tributo ao Raul Seixas muito boa. Chama-se Cachorro Urubu. Há de se considerar também como tributo quando um artista x deseja prestar homenagem a um artista y, como fez, por exemplo, Zeca Baleiro ao homenagear Zé Ramalho com uma turnê em que ele executava músicas do homenageado. Entretanto sem tentar imitá-lo, nos trajes e trejeitos, e executando as canções em versões, leituras, interpretações suas e de sua banda, mas, como já foi falado aqui, mantendo as harmonias e melodias originais. Portanto, é um tributo-homenagem feito com versões das músicas originais e aval do autor.

Há também a paródia. Essa é uma técnica muito interessante. Eu adoro! Mas neste texto não me aprofundarei nessa vertente, pois ela é um processo de composição também, mesmo que parta de algo já existente. Em outro momento talvez eu aprofunde esse e outro tema que também merece atenção, que é o caso das versões que são feitas de uma língua para outra. The Fevers, por exemplo, foi uma banda mestra nesse tipo de composição. Sim, composição. A música (harmonias e melodias) se mantém como a original, mas a letra é uma nova, não é uma tradução, o que acaba conferindo à canção uma autoria em sua versão. Abre-se margem a contestação, é claro, mas em outro momento pensarei em esmiuçar isso.  

Pois bem, de forma bastante formal (aqui neste texto) tentei tratar desses temas que me afetam. E de forma bastante irreverente e irônica tratei desses temas em canção. A música se chama Coveiro, uma brincadeira com quem faz cover. Se faz cover é coveiro, pois além de ser um sufixo – eiro – destinado a atribuir características (rockeiro, reggaeiro, funkeiro etc.), aqui ele atribui uma característica àqueles que reproduzem características já existentes: a função de enterrar o autoral.            

Nenhum comentário:

Postar um comentário